Opinião

Priorizar as pessoas

São várias e diversas as marcas que a pandemia cravou em cada um de nós. Vão custar a sarar e não se apagam apenas com políticas públicas fundadas em apoios sociais. Precisamos de mais. Precisamos de políticas transversais, que tenham em conta regiões, setores, idades, condições de vida. Há que reconstruir tudo. Com outras estratégias.

O presidente da República foi assertivo quando, na comunicação que fez anteontem à noite, disse que temos de reconstruir o país, dando prioridade às pessoas. É verdade que a economia sofreu uma hecatombe, mas as nossas vidas não passaram por menor tragédia. Mudou tudo e mesmo aqueles que mantiveram a sua situação financeira inalterável passaram por abalos profundos no seu quotidiano. E isso altera inexoravelmente o modo como encaramos, a partir de agora, o futuro.

O tempo é de reconstrução, tal como defendeu Marcelo Rebelo de Sousa. E isso não se faz mendigando apoios pontuais. É necessário mudar estruturalmente as políticas e criar outra forma de relacionamento entre políticos e cidadãos. Entraremos em breve num período de eleições autárquicas. Por esta altura, muitos políticos preparam equipas e programas eleitorais. Que bom seria se se abrissem oportunidades para gente nova, com outras ideias, com um modo menos caciqueiro de construir propostas, com mais disponibilidade para aproximar eleitos e eleitores. Uma câmara municipal não pode ser um edifício medonho, cheio de corredores burocráticos que nada resolvem a quem procura soluções para decidir o seu quotidiano.

Também o Governo tem aqui responsabilidades colossais. O Plano de Recuperação e Resiliência dá-nos chão para abrir novos e promissores caminhos em várias áreas. Não podemos, com ele, reforçar um Estado que se verga aos interesses do mercado, mas deveremos fazer vingar, de uma vez por todas, um Estado social ao serviço das pessoas, com uma ideia enraizada num futuro mais sustentável, mais equilibrado, mais inovador, mais cuidador dos grupos vulneráveis, mais motivado em combater assimetrias, mais apostado no conhecimento.

Claro que todos deveremos sentir-nos interpelados por esta mudança. Erguer-nos do chão pressupõe um compromisso com outros estilos de vida, mais implicados com o bem comum. A pandemia que tanto nos abalou deixa a estas gerações uma lição irrepetível: o nosso bem-estar depende em grande parte do comportamento dos outros e isso confere a cada um de nós um sólido e inabalável comprometimento com o coletivo.

Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG