Opinião

Quem importa ouvir

A pandemia que atravessamos redefiniu o campo jornalístico: impôs novos temas e deu centralidade a outros interlocutores.

Procuramos agora ouvir mais os profissionais de saúde, interpelados para falar não apenas deste desconhecido vírus, mas também do modo como podemos ir retomando o quotidiano em diversas áreas: educação, economia, lazer... Constatamos, assim, que andámos muito tempo mergulhados num enorme ruído, entretidos com assuntos sem importância e com atores sociais sem nada de relevante para nos dizer.

Não nos aproximaremos da situação da França onde médicos e investigadores se tornaram influentes consultores do presidente e do Governo ou estrelas mediáticas dos canais de televisão. No entanto, também em Portugal, houve uma importantíssima revolução das fontes de informação. Os média passaram a ancorar grande parte dos seus conteúdos jornalísticos em especialistas, nomeadamente do campo da saúde. A informação ganhou mais qualidade; os consumidores, mais confiança. Que bom seria se o jornalismo passasse a assumir como traço distintivo essa força das fontes especializadas, capaz de transportar o que é transmitido para a linha da frente dos alinhamentos noticiosos.

Esta semana, a revista "L"Express" preenche a sua capa com médicos, anunciando que está aí "o novo poder". São os profissionais de saúde que os franceses querem mais escutar para obter informação, dissipar dúvidas, encontrar referências de segurança... Também certas instituições até então desconhecidas da opinião pública se tornaram algo próximas dos cidadãos. De certa forma, também sentimos isso por cá. Designações como virologistas ou epidemiologistas são mais familiares e organismos como a Direção-Geral da Saúde ou o Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge constituem nomes que passaram a soar como espécie de alarme para a chegada de informação nova sobre a covid-19 em Portugal.

Claro que os políticos continuam a ocupar um espaço substancial das notícias, mas o grupo reduziu-se drasticamente. Em estado de emergência, aqueles que mais se salientaram foram o primeiro-ministro, o presidente da República, o ministro da Economia e as ministras da Saúde e a do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social. Os deputados caíram numa certa irrelevância mediática. E os autarcas foram aparecendo, quando havia um pico de noticiabilidade na respetiva área de influência.

Neste contexto pandémico, são ouvidos todos aqueles que têm alguma coisa relevante para dizer. Deveria ser a regra a partir de agora.

Professora associada com agregação da Universidade do Minho

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