O Jogo ao Vivo

Opinião

Ruas digitais

De início são dois ou três, mas em pouco tempo mais parecem uma multidão tal o barulho que fazem. Ali estão, cada um em sua casa, unidos por um ecrã de computador ou de telemóvel. Familiarizaram-se com a tecnologia através do ensino remoto. E transformaram essa circunstância numa oportunidade para estarem uns com os outros em tempo de confinamento. E brincarem. Juntos.

Há um ano não sabiam ligar um computador, tão-pouco conheciam sites, nem imaginavam possível partilhar ecrãs. Em escassos meses, aprenderam a fazer tudo isso. Em grupo. São crianças pequenas a quem a pandemia roubou liberdade para interagirem em ambientes físicos. Quando não estão na escola, passam a maior parte do tempo em casa, mas aí descobriram equipamentos eletrónicos através dos quais criaram ruas digitais que lhes restituíram espaço de convívio. Sem barreiras.

De repente, cá em casa os fins de semana algo silenciosos encheram-se de aparatosas gargalhadas, musculados protestos e conversas entrelaçadas em incontrolados decibéis. Isto porque o meu filho encontrou com os colegas de turma formas de partilhar ecrãs que lhes permitem fazer (quase) tudo. É impressionante aquilo que os mais novos aprenderam nos últimos meses ao nível das tecnologias: saltam de site em site, entram nos jogos uns dos outros, usam o teclado para enviar mensagens...

Confesso que fico mais presa ao modo como se relacionam entre si. Falam para o ecrã como se os amigos estivessem em presença deles, interrompem conversas, gritam, riem, gesticulam, dançam. Também me impressiona a alegria que manifestam sempre que um colega se junta à plataforma e o modo como se unem para ensinar um jogo a quem nele se inicia. E quando chega a hora de alguém ir embora, há sempre um que exige ali a presença de um dos pais para o convencer a soltar mais tempo...

O contexto atual empurrou os mais pequenos para o mundo digital onde eles se encontram para exercerem um direito inalienável: serem crianças. É verdade que nem todos têm via verde para passar para estes sítios. E isso deveria preocupar-nos muito. Também é verdade que estes domínios comportam em si riscos, quando o jogo passa a sobrepor-se ao convívio ou quando se torna viciante. Há, pois, que acautelar poluições, sem, no entanto, negar o grande contributo que estes espaços trouxeram: formas renovadas de brincar, quando os encontros físicos não são possíveis. E lá estão eles nas ruas digitais, exibindo muito daquilo que alguns professores tão assertivamente lhes ensinam: a estar (bem) uns com os outros. Não há aprendizagem mais valiosa nesta idade.

Professora Associada com agregação da UMinho

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