Opinião

Temos de evitar a catástrofe alimentar

Temos de evitar a catástrofe alimentar

Fortemente afetado pela covid-19, o sistema alimentar global é agora atingido por uma guerra inesperada. Antes da invasão da Ucrânia, o Programa Alimentar Mundial já havia avisado que 2022 seria terrível. Mas poderá ainda ultrapassar as piores previsões.

Juntas, a Rússia e a Ucrânia forneciam habitualmente 28 por cento do trigo, 29 por cento da cevada, 15 por cento do milho e 75 por cento do óleo de girassol comercializados. Os confrontos militares no terreno por um lado e as sanções por outro interromperam grande parte destas cadeias de fornecimento. Poder-se-ia procurar estes bens em celeiros de outras geografias. No entanto, as alterações climáticas vêm invertendo o curso normal de produção. Este ano, as exportações de trigo sofreram um duro revés na Índia por causa das sucessivas ondas de calor e na China devido às fortes chuvas.

Originando uma acentuada subida dos preços, esta situação tem um efeito mais doloroso nas famílias mais pobres. Segundo escrevia ontem a revista "The Economist", quase 250 milhões de pessoas estão à beira da fome. E muitos mais experimentam sérias dificuldades para comprar bens alimentares básicos. O secretário-geral da ONU já lembrou que os próximos meses podem abrir o espectro de uma escassez global de alimentos que pode durar anos. A subida do preço dos alimentos básicos fez já passar de 440 milhões para 1,6 mil milhões o número de pessoas sem o suficiente para comer.

Acompanhando as declarações dos presidentes da Rússia e da Ucrânia, a guerra continua sem fim à vista. Pelo que percebemos, os EUA não se apresentam como parte de uma solução de curto prazo. Há poucos dias, o jornal alemão "Der Tagesspiegel" propunha não esquecer a diplomacia, sobretudo aquela que poderá ser desenvolvida em território europeu. Apontam-se alguns mediadores, capazes de abrir as necessárias negociações. No entanto, não será fácil sentar à mesma mesa Putin e Zelensky e convencê-los a fazer concessões...

Neste quadro, há uma pressão internacional que está ainda por intensificar. Convém igualmente não desvalorizar a força da opinião pública. Ainda a atravessar uma pandemia e surpreendidos por uma guerra que nunca calculávamos que acontecesse, vemo-nos, atónitos, no limiar de outras catástrofes. A revista "Time" lembrava ontem, em capa, que o Ártico e a Antártida estão a aquecer mais rapidamente do que qualquer outro lugar da Terra e isso tem enorme impacto na regulação do clima. Entretanto, eis-nos perante outra ameaça que é preciso combater: a alimentar.

*Prof. associada com agregação da UMinho

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