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Um especialista não é um comentador

Um especialista não é um comentador

A pandemia que atravessamos chamou para o centro do espaço noticioso um conjunto de especialistas de quem se espera um "saber sábio".

A eles, pede-se a partilha de conhecimento a partir do seu trabalho ou investigação. Ora, esta semana, alguns deles precipitaram-se em entrevistas sobre eventuais efeitos da vacina AstraZeneca com base em perceções comuns e não em evidência científica. Isso é um erro colossal.

"Se tivesse que dar uma dose da vacina AstraZeneca à minha mãe, não hesitaria em fazer isso". A frase, repetida por mais do que um especialista em diferentes canais de televisão, provoca perplexidade, porque ninguém está muito interessado em saber as opções pessoais daquele que fala a partir do seu campo do saber. A esse tipo de interlocutor pede-se análise de dados, partilha de dúvidas metódicas, exposição de resultados... O discurso deve ser sempre impessoal, rigoroso, assertivo. Não interessa muito a linguagem fática ou expressiva que cada um é capaz de ensaiar na cena mediática. Importa, acima de tudo, a capacidade para explicar, contextualizar e largar âncoras seguras às quais nos possamos agarrar para ir fazendo caminho. Não é bem isso que se tem passada no que às vacinas diz respeito.

É verdade que a Comissão Europeia não tem sido o melhor exemplo para os países da União. A vários níveis: de negociação, de decisão, de monitorização, de comunicação. As vacinas são um dossiê conduzido politicamente, mas que deveria ser sempre estabilizado por saberes especializados, capazes de garantir algo fundamental para que tudo decorra com a normalidade possível: a confiança dos cidadãos. Nesta altura, isso está profundamente abalado, porque ninguém foi capaz de ir interrompendo as polémicas que se vêm arrastando há semanas.

Ora se as autoridades oficiais não têm logrado combater dúvidas quanto à segurança de uma vacina que está no topo dos alinhamentos noticiosos envolta em enorme controvérsia, esperar-se-ia que os especialistas revelassem alguma prudência nas entrevistas que dão... Trabalhar no campo da saúde não habilita um especialista a falar de qualquer assunto desse domínio. A este nível, não se faz extensão de competência e muito menos se convoca para o discurso que se constrói meras perceções da vida de todos os dias. Um médico ou um investigador falam em registo científico. É para isso que os jornalistas os convocam enquanto fontes de informação. Vaguear acerca das opções familiares não interessa nada. É ruído.

* Prof. Associada com Agregação da UMinho

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