Opinião

Um mau momento para Centeno, Costa e Marcelo

Um mau momento para Centeno, Costa e Marcelo

Não terá sido por acaso que António Costa disse, anteontem, que gostaria de regressar à Autoeuropa de Palmela acompanhado de Marcelo Rebelo de Sousa no primeiro ano do segundo mandato do atual presidente da República.

Imprevisível poderá ter sido a entrada da polémica do Novo Banco naquele momento aparentemente espontâneo, mas muito calculado. Às perguntas dos jornalistas sobre o assunto, o PR respondeu com um elogiou à precaução do PM no Parlamento. Talvez sem querer, abriu uma súbita crise no Governo, da qual todos saíram a perder.

António Costa terá medido bem as suas palavras. Ao confessar que faria gosto em acompanhar o atual PR num almoço na Autoeuropa no primeiro ano do segundo mandato do presidente, o primeiro-ministro fez uma declaração cheia de significado político: disse que acreditava na recandidatura de Marcelo, demonstrou convicção na vitória eleitoral do atual PR e, por extensão, deixou subentendido o apoio do PS a essa corrida presidencial. Com isso, desviava a agenda política do dia: a injeção de capital no Novo Banco antes da auditoria estar fechada. Tudo parecia estar a correr bem. Intervindo a seguir, Marcelo fez-se de desentendido em relação a esse apoio, que naturalmente deseja, dizendo sobre o assunto isto: "Cá estaremos este ano e nos próximos anos para construir um Portugal melhor". No silêncio que procurava gerir e tirando partido da máscara que lhe escondia expressões faciais, o PR estaria satisfeito com aquele momento.

No entanto, foi nas perguntas dos jornalistas que tudo se precipitou. O tema do Novo Banco nem surgiu logo. Veio embrulhado noutras questões. Sobre isso, o PR declarou duas coisas. Primeira: o Estado cumpre o que tem que cumprir. Segunda: havendo uma auditoria em curso, faria sentido o que defendera o PM no Parlamento, ou seja, primeiro fecha-se a auditoria, depois o Estado assume as responsabilidades. O elogio a Costa implicava uma forte crítica a Centeno. E isso teria uma consequência: um pedido de demissão do poderoso ministro das Finanças, numa altura particularmente sensível para o país, quer dentro de portas, quer no que diz respeito às negociações com a EU.

O cair da noite de quarta-feira traria outras encenações: uma reunião entre Costa e Centeno, um comunicado de S. Bento a restabelecer boas relações entre o PM e o ministro das Finanças e um telefonema do PR ao titular das Finanças. Aparentemente tudo voltaria a estar bem. Não é assim. E todos sabem que não conseguiram gerir esta crise da melhor forma.

* Prof. associada com agregação da UMinho