Opinião

Vacinar e explicar mais

Vacinar e explicar mais

Por estes dias, a noticiabilidade vai centrar-se na vacinação. Portugal inicia este processo domingo. Excelente.

No entanto, precisamos de falar menos em prazos, em grupos prioritários e nos lugares de armazenamento para priorizar discursos sobre condições de segurança, grau de inovação e organização dos centros de saúde. Os portugueses precisam de saber mais sobre esta vacina para além dos números que se debitam em permanência.

Quase em jeito de provocação, a revista britânica "The Spectator" escrevia, na semana passada, que 2020 poderia ficar marcado não pela Covid-19, mas por um tempo em que uma investigação feita à escala global e de modo muito célere derrotou um temível vírus. Não sabemos se isso assim será. Há muitas respostas que continuam ainda por precisar. Por exemplo: como funciona esta tecnologia? Qual a sua real eficácia? Quais os efeitos secundários? Por quanto tempo perdura a imunidade? Será que podemos transmitir o vírus depois de vacinados?... No entanto, ainda que a incerteza sobre aspetos importantes se revele colossal, é inequívoco o avanço da ciência neste domínio. E o papel libertador que isso constitui.

Ao contrário daquilo que aconteceu na primeira e na segunda vagas da pandemia em que os especialistas tomaram conta do espaço público mediático, o surgimento das vacinas é, sobretudo, anunciado pelos políticos. Em Portugal e em vários países. E isso tem transportado consigo alguns riscos devido a tudo ser declinado por dois ou três ângulos: fases de vacinação, grupos prioritários, números de vacinas a chegar a cada país. Trata-se indubitavelmente de ângulos importantes, mas é urgente ir mais além. Até porque há uma parte importante da população que não está convencida dos méritos desta vacina. E esse ceticismo não deve ser combatido apenas com campanhas de publicidade. Deve ser neutralizado com informação, fornecida por fontes credíveis, possuidoras de um "saber sábio" que nos expliquem o que aqui está em causa.

Talvez este tempo pudesse ter sido dos números, mas a partir de agora é preciso que os políticos cedam mais espaço aos especialistas. Eles foram uma âncora importantíssima nestes meses de pandemia. Precisamos de recuperar alguns e chamar para o palco outros que detenham saber especializado neste campo. É fundamental integrar no espaço público mediático interlocutores que saibam realmente falar da importância das vacinas.

Prof. Associada com Agregação da UMinho

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