Opinião

A saúde depende do código postal

A saúde depende do código postal

As fraturas do colo do fémur são comuns e graves, mais frequentes em mulheres acima dos 75 anos. A sua mortalidade é elevada, sendo que cerca de 5-10% dos doentes pode falecer no primeiro mês após a cirurgia e chegar mesmo aos 27% no primeiro ano (um em quatro doentes).

Estes são os doentes mais frágeis e o seu prognóstico depende muito da forma como são tratados. Os estudos demonstram que mais tempo de espera pré-operatória se associa a aumento da mortalidade e risco acrescido de infeção e úlceras de decúbito. As normas recomendam que a cirurgia seja realizada nas primeiras 24-48h após a admissão no Serviço de Urgência.

Segundo o relatório da OCDE de 2021, a taxa de cirurgia nos dois primeiros dias de admissão é em média de 77%, com um número significativo de países a ultrapassarem os 90%. Portugal apresentou um valor de 47%. Isto é, apenas um em cada dois portugueses foi operado dentro do tempo desejado.

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De acordo com o portal de transparência do SNS, nos primeiros quatro meses de 2022, dos 7319 doentes que sofreram fraturas do colo do fémur, somente 51% foram operados nas 24-48h. Mantém-se o fraco desempenho. No entanto, encontramos unidades com taxas superiores a 90% (similar aos melhores países) e outras com valores inferiores a 10%. Ou seja, há hospitais em Portugal onde apenas um em cada 10 doentes é operado dentro do intervalo de tempo clinicamente recomendado. E tal repete-se ano após ano.

Infelizmente, não existe nenhuma repercussão se o hospital demorar dois dias ou duas semanas a operar. Nem se o doente tiver alta precoce, orientado para uma resposta de medicina física e reabilitação ou se perder a autonomia para as atividades de vida diária. Não se valoriza o desempenho, em termos de qualidade assistencial.

Falta uma cultura de exigência e de reconhecimento. Não depende da competência do ortopedista. Depende da organização e planeamento do hospital, da disponibilidade do bloco operatório, bem como da estabilização destes doentes que muitas vezes possuem comorbilidades. Importa que esta dimensão da saúde seja uma prioridade para as lideranças e que sejam avaliados pelos resultados alcançados.

Enquanto isso não acontecer resta-nos esperar que, se a nossa mãe ou avó cair e fraturar o colo do fémur, que seja no local com o código postal certo.

A desigualdade no acesso a cuidados de saúde continua a ser um dos parâmetros mais relevantes no nosso país. Os idosos, os velhos, são sempre os últimos na linha. E em alguns locais, mesmo os últimos dos últimos.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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