Opinião

Estamos a esquecer as pessoas

Estamos a esquecer as pessoas

Desde há alguns dias que sentia uma pressão no seio direito. Um incómodo que relacionou com traumatismo. Mas naquele dia, após o banho, em frente ao espelho, a dor levou-a a palpar e descobriu um pequeno nódulo. Ficou apreensiva. Começou a tentar lembrar-se quando tinha efetuado a última mamografia e percebeu que não a tinham chamado. Preocupada, decidiu ir ao centro de saúde, mas estava sem médico de família há dois anos. Não sabia o que fazer, à medida que a ansiedade se apoderava. Desesperada, ponderou uma clínica privada, mas não tinha seguro. Sempre pensou que em termos de saúde nunca se precisaria de preocupar.

Foi de metro ao serviço de urgência. Estava angustiada. Já tinha palpado por várias vezes e o nódulo não desaparecia. Decidiu não contar ao marido e aos filhos. Aguardou algumas horas para ser atendida. O serviço de urgência estava cheio. Caras sofridas. Impacientes. Foi observada por uma médica de meia-idade, com ar cansado. Ligou para alguém, enquanto se afastava do gabinete. No meio do ruído dos equipamentos, conseguiu perceber "neoplasia". O medo instalou-se. A médica informou de que iria ser observada no centro da mama, que faria exames, que... afundou-se na cadeira. Deixou de ouvir, enquanto apenas pensava, "porquê a mim?".

Os estudos publicados este ano sobre oncologia são unânimes e demonstram que infelizmente esta mulher não está sozinha. O relatório da Comissão Europeia revela que a pandemia teve em Portugal um impacto nas taxas de rastreio de cancro da mama, tendo em 2020 reduzido em 53% o número das mulheres que foram rastreadas. A "Evolução do Desempenho do SNS", do Conselho das Finanças Públicas, refere que, em 2021, menos de uma em cada duas mulheres-alvo foi efetivamente rastreada. A Entidade Reguladora da Saúde constata uma redução acentuada nos utentes rastreados para cancro. A auditoria do Tribunal de Contas demonstra que na cirurgia oncológica se verificou uma degradação dos resultados. O estudo do ISPUP assinala que a pandemia provocou uma diminuição relevante nos cuidados de saúde aos doentes com cancro. A Liga Portuguesa Contra o Cancro perspetiva aumento da mortalidade e menor qualidade de vida. No entanto, e apesar da informação, a estratégia não mudou. Comentam-se os números, mas faltam as medidas.

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Governar pelas primeiras páginas dos jornais significa passarmos do estrutural ao acessório. Adiarmos o foco no cancro, pelas contingências, significa que estamos a esquecer as pessoas, nomeadamente as mais vulneráveis.

Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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