Opinião

Este verão não abandone os velhos

Este verão não abandone os velhos

Uma ambulância pára no serviço de urgência. O INEM foi acionado. Na maca, jaz um homem que parece ter mais de 100 anos. Respira com dificuldade.

De forma célere, um dos técnicos realiza a inscrição no posto de atendimento, enquanto o outro empurra a maca em direção à triagem.

O senhor, claramente desorientado, levanta um braço, talvez a pedir algo. Ninguém liga. Um saco com medicamentos está pousado sobre o lençol. Carteiras e embalagens dispersas. Está sozinho. Completamente sozinho.

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As enfermeiras tentam aplicar o algoritmo da triagem. Tarefa ingrata. Responde com monossílabos. Não sabe onde está. Quer ir para casa.

Encontra-se desidratado. Frágil. A pele cola-se aos ossos. Colocam-lhe uma pulseira amarela.

O serviço de urgência está cheio. Mas estranhamente reina um silêncio. No meio da dor, as pessoas esperam. Esperam por uma notícia, um exame, um medicamento, qualquer coisa que lhes tire aquele peso da doença.

Ao fim de algum tempo, um jovem médico acerca-se e tenta reconstruir a história. Algo impossível. Pesquisa no sistema de informação. Rapidamente identifica uma dúzia de patologias e muitos, muitos medicamentos. Não condizem com os que estão no saco. Existem vários repetidos, mas de marcas diferentes, com cores de embalagens distintas. Nos últimos meses conta múltiplas idas ao serviço de urgência.

No sistema aparece um telefone de contacto. À terceira tentativa atendem. Voz feminina. Trata-se da nora, que costuma ser a cuidadora. Sim, chamaram o INEM. O sogro sentia-se pior. Não, não podem ir ao hospital. Foram hoje de férias para o Algarve. Voltam dali a uma semana. Precisavam de descansar.

O médico riposta que se as análises estiverem bem, depois de hidratado deveria ter alta. Ficar no hospital só aumenta o risco de infeções, desorientação. Pois, mas agora não era possível.

Os olhos ainda vivos tentam perceber onde se encontra. Nada lhe faz sentido.

O homem tinha sido mesmo abandonado no hospital. À falta de respostas sociais, as famílias adaptam-se e criam as suas próprias soluções. Por vezes cruéis.

Os velhos não possuem voz própria. Apenas um número de bilhete de identidade. Não votam, não reclamam. Não contam.

A porta do serviço de urgência parece ser o local que melhor reflete o grau de humanismo de uma sociedade.

Algures uma senhora idosa de bata amarela dá-lhe a mão e pergunta-lhe o nome. Uma voluntária, que percebe a frieza do momento.

Todos os anos esta situação repete-se vezes de mais em todo o país. Este verão, não abandone os velhos.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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