Opinião

Lá fora um homem chora

Lá fora um homem chora

Lá fora um homem chora. Na sala de emergência enorme azáfama. Ordens simples. Gestos precisos. Muita tensão. É necessário estabilizar a criança. A equipa funciona de forma mecanizada, as decisões tomadas sem hesitação.

Uma dúzia de profissionais à volta da marquesa. Mais alguns entram e saem, a passo apressado. Uma médica, com cerca de 50 anos, chefia a equipa. Alguns jovens médicos observam, à distância. Passa pouco da meia-noite. Acidente de viação. A VMER transportou-a desde a região de Braga. Ainda não existe heliporto. Os telefones tocam. Precisam de ir para o bloco operatório. O cirurgião pediatra fala com o ortopedista e o neurocirurgião. Vozes abafadas. Está frio.

Durante este tempo ninguém questionou o resultado do teste covid-19. A transfusão de sangue a correr. Apenas importa salvar a criança. Preocupação com possível lesão cerebral. Mas ela é nova e dá luta.

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Seis e meia da manhã, a médica recebe a criança, ventilada, na Unidade de Cuidados Intensivos. Contei 11 as especialidades médicas que durante aquelas horas fizeram a diferença. Profissionais com elevada experiência, reunidos num único local, 24 horas por dia. A confiança de que existe sempre uma resposta para os casos mais complexos. Sem falhas.

O pai sentado ao lado do filho segura-lhe a mão. A história irá ter um final feliz. Mas nem sempre isso acontece. Este episódio, real, ocorrido no mês passado, repete-se diariamente no SNS, com outros rostos, mas a mesma entrega. Podia ser de uma série de televisão. Mas o que não aparece nos ecrãs é a realidade.

A médica já é a segunda noite que faz esta semana. São necessários anos para formar profissionais diferenciados e os jovens hesitam em seguir carreiras física e emocionalmente duras, mal remuneradas e com enorme impacto familiar. Algumas enfermeiras e assistentes operacionais já estão no terceiro turno em horas extras. Apenas o espírito de equipa as mantém. O ortopedista pensa deixar o hospital, atraído pela medicina privada, sem noites de urgência e financeiramente mais compensadora. Os dramas acabam por ser levados para casa. Já desistiram de reclamar e simplesmente abandonam.

A história de superação do SNS é feita de heróis anónimos. Esta escola, que inspira pessoas e constrói sonhos, não está a conseguir cativar. O pragmatismo ganha espaço. Precisamos de quem nos faça acreditar. Que faça acontecer.

Ao longe apercebemo-nos do sorriso do pai quando a criança abre os olhos. Sei bem o que isso significa.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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