Opinião

Não havia tempo para o luto

Não havia tempo para o luto

A semana passada foi reaberta no Hospital São João a última enfermaria do Serviço de Pneumologia que se encontrava em obras, após o trágico incêndio de dezembro do ano passado. As elevadas temperaturas danificaram as infraestruturas e obrigaram a uma intervenção profunda.

No entanto, para quem viveu aquelas terríveis horas, a memória dos acontecimentos permanece intacta.

Fumo intenso. Nevoeiro espesso. No corredor, ao longe, as luzes de uma árvore de Natal a piscar, de forma absurda. Os alarmes a ecoar. Mas o que mais impressionava era o cheiro a queimado. Um odor que se impregnava nas paredes, na roupa, na pele. E que teimava em ficar.

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A azáfama dos profissionais de saúde a resgatar doentes em macas, sobressaltados. O plano de emergência cumpria-se, de forma eficaz. Uma médica franzina e um enfermeiro, tentando reanimar um doente. Tudo parecia irreal. Vi medo, nos olhos. Mas também presenciei coragem e determinação. Observei profissionais de saúde, sem qualquer hesitação, a não virar as costas ao perigo. Senti o que de mais humano nós temos.

Muitos elementos deslocaram-se de imediato à instituição. A família São João uniu-se, desde a primeira hora.

O incêndio de elevada complexidade, foi combatido com profissionalismo pelos Sapadores Bombeiros do Porto. No meio de um hospital, com mais de 1100 doentes internados, geriram com equilíbrio a intervenção, assegurando que tínhamos condições para manter a atividade.

A equipa de técnicos da Polícia Judiciária investigou naquela noite a origem do incêndio. Surpreendeu o inspetor da brigada de homicídios. A forma afável e tranquila como tratava as pessoas. Alguém que estava interessado genuinamente em descobrir a verdade.

Apesar da avaliação inicial excluir falha infraestrutural, existe um sentido ético no exercício das responsabilidades públicas que não deve ser esquecido.

Quem pensa que os profissionais de saúde são iguais a muitos outros, não nos conhece realmente. Estamos habituados a lidar com a morte, de muito perto, todos os dias. Mas nem por isso nos esquecemos dos valores humanos, dos que nos deixam ao nosso cuidado, dos mais frágeis.

Há momentos que marcam. Passar agora naquelas enfermarias é assistir a vida a acontecer. Mas não deixo de recordar, já de madrugada, quando voltamos com as equipas internas ao local, para planear as ações dos dias seguintes. O hospital não podia parar e existiam doentes que precisavam de respostas. Não havia tempo para o luto. Um novo dia estava a começar.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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