Opinião

O motor da recuperação dos transplantes está a Norte

O motor da recuperação dos transplantes está a Norte

De acordo com a informação do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), em 2021 assistiu-se a uma recuperação do número de transplantes realizados em Portugal, ainda que de forma heterogénea no país, após a quebra significativa de 2020 devido à pandemia por covid-19.

Em 2021 tivemos 340 dadores de órgãos, representando um crescimento de 14% face a 2020, mas ainda com uma queda de 21% em relação a 2019. Se compararmos este número com o registado em 2013 (359 dadores), percebemos que estamos com os valores de há uma década.

Analisando a variação regional, verificamos uma enorme assimetria, sobretudo no dador falecido. Em 2021, o Norte teve um crescimento de 94% em relação a 2020, alcançando valores semelhantes a 2019, com recuperação integral pré-pandemia. Na Região Centro houve um crescimento de 24% em relação a 2020, mas com números ainda 7% abaixo de 2019. Quanto ao Sul, o número de dadores mantém-se 11% abaixo de 2020 e 25% inferior a 2019.

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Sendo verdade que continuamos nos cinco países com maior número de dadores falecidos por milhão de habitantes, descendo um lugar relativamente a 2020, não nos podemos esquecer dos 2165 portugueses que aguardam um transplante. Esta realidade tem um impacto trágico na esperança de vida e na qualidade de vida destas pessoas, traduzindo um drama familiar, com enorme relevo económico e social.

Estamos 33% abaixo de Espanha no número de dadores falecidos por milhão de habitantes, objetivo que é tangível com uma estratégia nacional consistente. Apesar dos esforços realizados pelo IPST, da sociedade portuguesa ser muito favorável à dádiva e de termos profissionais tecnicamente muito diferenciados e de uma generosidade única, é essencial que o Governo assuma esta dimensão como prioritária e implemente as políticas de planeamento e organização necessárias para a sua efetiva concretização.

A atividade de colheita de órgãos para transplantação é das mais exigentes para um sistema de saúde. O caráter aleatório das situações conducentes à morte requer um sistema organizado e flexível, integrando várias especialidades e grupos profissionais, de forma que nenhum órgão e a oportunidade de vida que ele representa se perca. Claramente, o Norte demonstrou uma capacidade ímpar, duplicando os valores obtidos em 2020, devendo os bons resultados ser objeto de análise e servir para combater assimetrias regionais.

Interessa focarmo-nos no que é realmente importante para os cidadãos, e alguns não têm tempo para esperar.

*Presidente do Conselho de Administração do Centro Hospitalar Universitário de S. João

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