Opinião

A esquizofrénica Instrução para o Clero

A esquizofrénica Instrução para o Clero

Não falta quem cite o Papa Francisco, mas poucos acompanham o seu dinamismo. Anseiam até que acabe depressa esta "agitação" franciscana e se regresse ao sossego do passado.

Tal acontece até com os organismos da Cúria Romana e transparece em documentos como a Instrução da Congregação para o Clero, com o pomposo título: "A conversão pastoral da comunidade paroquial ao serviço da missão evangelizadora da Igreja".

Este documento arranca bem e até cita a Evangelii Gaudium, quando o Papa diz: "Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: "Dai-lhes vós mesmos de comer" (Mc 6, 37)" (nº 49).

Começa bem, mas rapidamente passa para o registo normativo, explicitando o que se pode ou não se pode fazer com inúmeras citações do Código de Direito Canónico. Não incita a "procurar novas estradas" ou a explorar as "tantas possibilidades, tanta liberdade" que ele permite, como se refere no início do documento, mas quase só para sublinhar o que ele proíbe.

A Instrução da Congregação do Clero é um bom guia para os párocos saberem o que podem fazer. Mas pouco os inspira a renovarem as paróquias. Apenas uma pincelada aqui ou ali, como na questão do Conselho Pastoral, no n.º 110. Contudo, logo a seguir, gasta uma série de números a vincar o seu caráter consultivo.

É um documento seguro na doutrina. Contudo, pobre nas propostas para que as paróquias se convertam e adequem à sua missão evangelizadora numa sociedade com tantos elementos de novidade. É um documento esquizofrénico. Arranca com ardor missionário e parece empenhado em desbravar novos caminhos. Todavia, logo perde a chama e arrasta-se num elencar de características da paróquia. Não esclarece, por exemplo, como as suas estruturas se deverão renovar em ordem a um dinamismo missionário.

Que utilidade tem um documento que repete o que já se sabia e tão pouco sugere para uma renovação paroquial?

Padre

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