Opinião

A quarta vermelha e a sexta negra

A quarta vermelha e a sexta negra

Na semana passada, assinalaram-se dois dias de cores diferentes e com significados bem diferentes. Foi a quarta-feira vermelha (red wednesday) e a sexta-feira negra (black friday).

Na quarta-feira, a Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) pediu para que se iluminassem os monumentos de vermelho para recordar os 300 milhões de cristãos perseguidos pelo Mundo. Foram vários os países que se associaram à iniciativa.

Apesar da espetacularidade da iniciativa, e da grande adesão registada, o dia passou praticamente despercebido, sobretudo se comparado com o impacto da sexta-feira negra. Esta é mais uma tradição importada dos Estados Unidos que tem contribuído para "tornar normal um consumo exagerado, o consumir por consumir, não por necessidade", denunciou o cardeal Juan José Omella, arcebispo de Barcelona, num texto no sítio "Religión Digital".

"Enquanto alguns vivem a loucura do consumismo, outros saem à rua à procura de outro tipo de oportunidades; obtê-las também será uma grande aventura (...) Esses aventureiros são os pobres da nossa sociedade. Para eles, todos os dias são black fridays, dias sombrios (...) Alguns, faça frio ou calor, aguentam estoicamente longas filas para serem servidos ou encontrarem uma refeição num refeitório social. Tudo para economizar alguns euros", escreve o cardeal de Barcelona.

Há, contudo, quem queira remar contra a corrente do consumismo. Na passada sexta-feira, o sítio de informação religiosa, "Sete margens" chamava a atenção para uma campanha que pretende "despertar consciências e contrapor-se ao apelo consumista da black friday". Foi promovida por uma rede de agências católicas constituída pela FEC - Fundação Fé e Cooperação, Associação Casa Velha e CIDSE - Organização de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento e Solidariedade.

"Reduz, transforma, reutiliza, altera" é a sugestão que deixam num vídeo. Desafiam as pessoas a darem pequenos passos na redução dos seus consumos e a partilhá-los na página que criaram para o efeito.

É muito difícil de combater o consumismo. O Papa Francisco já o classificou como uma doença - e como um pecado. "Se não lutarmos contra esta febre que a sociedade de consumo nos impõe para nos vender coisas, acabamos por nos transformar em pobres insatisfeitos", alertou o Papa na exortação apostólica "Gaudete et Exsultate". Para além de tudo, o consumismo põe em risco a sustentabilidade do planeta.

Este é um combate em que a Igreja tem de se empenhar. Será outra forma de honrar os seus mártires.

*PADRE