Opinião

Acolher os refugiados ajuda o país

Acolher os refugiados ajuda o país

Não é de estranhar que a Igreja erga a sua voz em defesa dos migrantes e que critique os populismos que insistem em culpá-los de todos os males que afetam as sociedades ocidentais. A Igreja reconhece-se como povo peregrino e, portanto, faz parte do seu código genético a característica de povo emigrante, que lhe vem da tradição judaica.

O povo israelita tem em Abraão, o "arameu errante", a sua origem. Tem a consciência que desceu ao Egito, onde viveu como estrangeiro, para fugir da fome. Ali experimentou a escravidão até ser libertado por Deus. Toda a legislação bíblica do livro do Deuteronómio impõe ao povo o respeito pelo estrangeiro e recorda-lhe constantemente que foi escravo no Egito (Dt. 24, 17-18).

O cristianismo é o herdeiro desta tradição e tem de ser sensível ao drama dos que, pelas mais variadas razões, se veem obrigados a abandonar a sua pátria e a procurar melhores condições de vida noutros países. Um cristão não pode voltar as costas aos emigrantes. E aqueles que têm responsabilidades políticas não podem ser insensíveis ao drama dos que fogem da guerra, do terrorismo e da fome e fechar-lhes as portas dos seus países. Não se podem brandir símbolos cristãos em comícios, como fez Matteo Salvini, vice-primeiro-ministro italiano, e, depois, não se ser coerente com uma das características mais determinantes da sua fé.

Salvini explora os receios que as populações sentem devido ao elevado número de emigrantes que rumam à Europa e, em particular, a Itália, procurando capitalizá-los em votos. Parece que está a ter muito sucesso... Mas o que se esperaria de um político cristão era que encontrasse soluções para este problema - não que fechasse fronteiras! Que fosse "mais criativo", exigiu o Papa Francisco numa entrevista concedida ao jornal italiano "La Stampa".

Em Portugal, encerrou-se ontem mais uma semana dedicada à reflexão sobre as migrações. D. António Vitalino, bispo emérito de Beja, responsável por este tema na Conferência Episcopal, publicou uma mensagem em que defende que aquele que emigra tem de "ser acolhido e não devolvido ao país de origem". Nos países de acolhimento tem de encontrar "proteção" e de ser "promovido em vez de abandonado à sua sorte, de ser integrado na sociedade e não empurrado para guetos". D. António Vitalino pede que se lute "contra o individualismo, a indiferença, ou mesmo contra a consideração dos migrantes como causa dos males que afetam as sociedades".

Já há em Portugal discursos populistas que defendem o fechamento das nossas fronteiras aos migrantes e refugiados. Também eles poderão ter algum sucesso eleitoral. Não é dessa forma, contudo, que se resolverão os problemas do país. A criatividade exigida pelo Papa para o acolhimento devido aos refugiados também não se encontra nessas propostas políticas. Não é rejeitando os refugiados e os emigrantes que se constrói um Portugal melhor. O seu acolhimento e integração é que podem ajudar a melhorar o país. Nomeadamente ajudando a inverter o declínio demográfico.

* PADRE