Opinião

Andamos a silenciar o Papa

Andamos a silenciar o Papa

Por vezes, os meios de comunicação social estão tão ocupados com outro tipo de agendas que não dão o devido destaque a acontecimentos como a visita histórica do Papa Francisco a África. É este o lamento de José Manuel Vidal, diretor do sítio de informação religiosa "Religión Digital".

Uma viagem tão "intensa, com cenas emocionantes, em três países-chave da biodiversidade global", quase não "existiu para os grandes meios de comunicação espanhóis". Escreve Vidal: "Pobre país, adormecido pelos "reality shows" tipo Big Brother, anestesiado pelo futebol, enlouquecido pelas séries virais e indignado com a política".

O diretor do "Religión Digital" refere três razões, entre outras, para o silenciamento da viagem papal. A primeira é clara para ele - "África não interessa, está muito longe e de lá só nos vêm problemas: doenças e migrantes".

A evolução que se tem verificado nos média, "que há muito tempo deixaram de ser "serviços públicos" para se tornarem meros negócios" é, para Vidal, a segunda causa do desprezo pela atividade do Papa. "Os chefes deste sistema que exclui e mata milhões de pessoas no Mundo não podem consentir que os "gritos" do Papa cheguem aos ouvidos das sociedades do Ocidente". E conclui Vidal: "Pobre democracia a nossa nas mãos destes meios [de comunicação]".

Uma outra razão apontada por Vidal é o facto de a Igreja, em Espanha e no mundo ocidental, estar a perder a credibilidade e a influência. "Durante muito tempo, pregou, mas não deu trigo. Viveu bem e não levantou a voz pelos que não a têm. E, apesar do Papa Francisco e contra ele, continua a deixar-se levar pela inércia antiga dos privilégios e do funcionalismo clerical em muitas partes do Mundo, incluindo a Espanha". Por isso, a "Igreja espanhola tem tão má imagem pública, que caminha para a irrelevância social. E o irrelevante não aparece nos meios [de comunicação]".

Em Portugal, não se notou tanto esse silenciamento do Papa. O seu périplo africano mereceu algum destaque, devido à passagem por Moçambique. Contudo, salientaram-se mais as referências do Papa ao Eusébio do que o ataque à corrupção, a defesa da biodiversidade e do ambiente ou as suas críticas ao "modelo económico idólatra" que denunciou nas Ilhas Maurícias.

Apesar do destaque dado a Moçambique, já a sua passagem por Madagáscar e pelas Ilhas Maurícias ficou restrita a algumas breves notícias. Na imprensa portuguesa, só o "Jornal de Notícias" deu algum destaque a um tema sensível e relevante desta viagem: a possibilidade de um cisma na Igreja. Cisma esse que o Papa não deseja, mas não teme.

Surpreendentemente, um jornal inglês, "The Guardian", dedicou um editorial à visita do Papa a África, classificando-a como "uma voz no deserto", uma vez que "nenhum outro líder espiritual tem defendido os pobres e o ambiente como ele". Trata-se de um jornal publicado num país maioritariamente anglicano. Contudo, dada a importância da iniciativa papal, dedicou-lhe o editorial. Tal não sucedeu em países ditos católicos como a Espanha ou Portugal.

*Padre