Opinião

Apreensão pela nomeação do novo núncio

Apreensão pela nomeação do novo núncio

São, no mínimo, preocupantes as reações à nomeação do novo núncio apostólico - uma espécie de embaixador da Santa Sé - para Portugal. Ivo Sacapolo foi até agora núncio apostólico do Chile. Ficou associado ao escândalo do encobrimento dos abusos sexuais de menores naquele país, tendo sido criticado por indigitar bispos ligados a Fernando Karadima, um sacerdote entretanto condenado por abusos e impedido de exercer o sacerdócio.

No Chile rejubilaram com a saída de Ivo Scapolo. Para Juan Carlos Claret, uma das vítimas dos abusos de Karadima, o Chile viu-se livre de "uma pessoa macabra, mas Portugal recebe um núncio que não deveria continuar em funções", refere o sítio "Religión Digital".

Marcial Sánchez, professor de História da Igreja, citado pelo sítio de atualidade religiosa "Sete margens", considera a passagem de Scapolo pelo Chile como "lamentável" e classifica-o como "um dos piores que teve a história do Chile". Para Marcial Sánchez, o núncio "não foi capaz de compreender e entender o que necessitava a Igreja chilena durante muitos anos. (...) não esteve à altura do que o Papa lhe pedia e inclusivamente ocultou informação ao Papa, como ficou absolutamente claro em alguns dos últimos acontecimentos". Deseja que "a vinda do diplomata para Portugal possa ajudar a esclarecer, através de investigações, o papel de Ivo Scapolo como eventual encobridor de casos de abuso sexual".

A Conferência Episcopal Portuguesa, em comunicado assinado pelo seu porta-voz, o padre Manuel Barbosa, congratula-se com esta nomeação, mas espera que "D. Ivo Scapolo exerça a sua missão entre nós como "homem de Deus, de Igreja, de zelo apostólico, de reconciliação, do Papa, de iniciativa, de obediência, de oração, de caridade ativa, de humildade"".

Citando o decálogo que o Papa Francisco propôs num encontro recente com núncios apostólicos, os bispos portugueses deixam transparecer alguma apreensão com a nomeação do novo núncio. Como homens de Igreja, têm de confiar na conversão das pessoas e acreditar que Scapolo não vai cometer em Portugal os mesmos erros de que é acusado no Chile, ou aqueles de que era acusado o seu antecessor.

A nomeação de Scapolo para Portugal não será uma falta de consideração da Santa Sé para com o nosso país. Poderá significar que a diplomacia vaticana acredita que este é o núncio ideal para Portugal porque aqui os bispos tudo fazem para não serem acusados de encobrimento, acolhendo até - e encaminhando-as para as autoridades - acusações que se vêm a revelar falsas.

*Padre