Opinião

Aprender com o andor que passa

Aprender com o andor que passa

Iniciou-se agosto. Este mês empresta alguma vitalidade às nossas aldeias. Traz os emigrantes e os familiares espalhados pelo país. Este é, por isso, o mês em que se concentram a maioria das festas das nossas comunidades.

Em muitas delas a procissão é o momento religioso com maior afluência, mas, como acontece com tantos outros, as pessoas limitam-se a assistir em vez de participar: "Ver passar a procissão...". Comentam e criticam, abdicando de viver o seu sentido mais profundo.

O andor pode ser também uma bela parábola da comunidade que peregrina sobre a terra carregando aos ombros o Evangelho de Jesus Cristo. Ou do Evangelho vivo que tantos homens e mulheres atualizaram nas suas vidas.

Tal como a vida nas sociedades, o andor não pode ser levado por uma só pessoa. E como seria ridículo alguém, sozinho, tentar levá-lo de arrasto... Em alguns casos, seria mesmo sobre-humano, dado o tamanho e o peso das peças. Exige-se, por isso, o envolvimento de vários indivíduos - e a coordenação de movimentos de todos.

Que adianta colocar bem alto, como acontece em tantas das nossas festas, o santo padroeiro se, depois, para pegar no andor se escolhem pessoas desequilibradas, descoordenadas e, muitas vezes, desvairadas? Se cada um puxar para seu lado; se um se quiser elevar em relação aos outros; então corre-se o risco de o santo inclinar e, até, cair ao chão. E quanto mais alto for o andor, maior, e mais estrondosa, será a queda.

Também nas comunidades, quando alguém procura absorver todas as responsabilidades e ser o centro de todas a atenções, não promove a participação dos demais e deixa de apontar para Deus ao tentar tornar-se o centro das atenções. Quando cada um procura sobressair mais do que o outro, não construímos uma comunidade harmoniosa e fraterna, apenas transformamos a igreja numa feira de vaidades. Não se fazem as coisas por amor à Igreja, mas pela ânsia de uma qualquer estéril promoção pessoal.

Aprendamos com Jesus Cristo o Bom Pastor, que, após ter saciado a fome da multidão, em vez de ficar a deleitar-se com os seus aplausos e insinuar-se para ser feito rei, retirou-se para um lugar solitário (Jo 6, 1-15).

Mais importante do que ver passar a procissão é incorporá-la. E, ainda mais importante que isso, seguir na vida o exemplo dado pelos santos e pela Virgem Maria. Como eles, não se procure o reconhecimento e os aplausos efémeros, mas servir com dedicação e zelo, sobretudo os que mais precisam. Os santos testemunham-nos que, dessa forma, seremos mais felizes.

*Padre

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