Opinião

Fátima convida à peregrinação interior

Fátima convida à peregrinação interior

Pela primeira vez, em mais de cem anos, a Cova da Iria não se vai encher de fiéis para celebrar o 13 de Maio.

Foi com a voz embargada e profundamente comovido que o cardeal D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima, comunicou que este ano "o Santuário de Fátima irá celebrar a Grande Peregrinação Internacional Aniversária de maio sem peregrinos fisicamente presentes, como tem sido habitual". Fê-lo a 29 de abril.

Algumas vozes - aproveitando as celebrações do 25 de Abril e, sobretudo, do 1.oº de Maio, destoando da seriedade e responsabilidade com que a Igreja tem lidado com esta pandemia - começaram a pressionar para que a peregrinação se realizasse. O Santuário renovou a decisão de não realizar as celebrações, nem nos moldes habituais, nem com a abertura a um elevado número de fiéis, à semelhança do que aconteceu com o 1.º de Maio.

Quando comunicou o cancelamento da peregrinação, D. António Marto esclareceu que "não se peregrina só a pé e com os pés, ou com a deslocação física". Segundo o cardeal, "também se peregrina com a mente e com o coração, quer dizer: fazendo uma peregrinação interior na busca de luz e de verdade, de regeneração e de cura, de conforto espiritual e de paz, no encontro do peregrino consigo mesmo, com a Mãe celeste e com o mistério de Deus, para continuar a caminhar com a força da esperança!".

Esta é a verdadeira peregrinação que todo o ser humano é chamado a fazer. A peregrinação a pé pode, ou não, criar o ambiente propício para este encontro consigo mesmo e com Deus, caso seja crente. Percorrer dezenas, centenas ou até milhares de quilómetros a pé, como acontecia nas peregrinações medievais à Terra Santa, poderá ser muito difícil. Mas fazer uma peregrinação interior é ainda mais duro.

Thomas Merton (1915-1968), monge trapista, dizia que "a distância mais longa é aquela que vai da cabeça ao coração". É difícil percorrê-la, sobretudo quando se vive imerso na agitação e no ruído do dia a dia. Este é um mundo em que se promove, sobretudo, a distração, a busca do prazer fora de si, e se investe pouco na interioridade, no desenvolvimento pessoal e humano, na espiritualidade. É um mundo que não está habituado a fazer silêncio, a entrar dentro de si próprio e a percorrer caminhos interiores.

O Santuário de Fátima, no seu sítio da Internet, propõe aos peregrinos "uma peregrinação interior, pelo coração, rumo ao encontro com Deus no santuário do próprio íntimo, onde Ele está presente". Esta é uma proposta coerente com o contexto de pandemia em que se vive. Mesmo quando a covid-19 for vencida, Fátima deverá continuar a promover esta forma de peregrinar. Deverá despertar nos seus peregrinos o gosto por se aventurarem em viagens interiores e treiná-los para, no regresso a suas casas e às suas profissões, continuarem a procurar tempos e ambientes para prosseguirem essa peregrinação. Dessa forma, Fátima estará a ajudar a Igreja a reinventar-se em consonância com as necessidades da Humanidade no século XXI e numa maior fidelidade à proposta evangélica.

Padre

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