Opinião

A coragem de convocar para "caminhar juntos"

A coragem de convocar para "caminhar juntos"

A sinodalidade é um dos conceitos recuperados pelo Papa Francisco, preocupado que está em "descongelar" o Concílio Vaticano II.

O Sínodo dos Bispos é uma consequência da reflexão conciliar em torno dessa temática. No discurso de comemoração do cinquentenário da instituição do Sínodo dos Bispos, a 17 de outubro de 2015, o Papa afirmou categoricamente que "o caminho da sinodalidade é precisamente o caminho que Deus espera da Igreja do terceiro milénio".

Sínodo é uma palavra de origem grega que significa "caminhar juntos". No contexto eclesial, é usada para convocar todos a darem o seu contributo para a reflexão de determinados temas ou a repensar a Igreja, seja a nível mundial, nacional ou diocesano.

Contudo, se não se der a devida abertura a que todos manifestem a sua opinião, e se a assembleia não retirar consequências concretas da reflexão produzida, então, como em tantas outras reuniões eclesiásticas, continuará tudo como antes. Não é isso que o Papa pretende, seja com os sínodos, seja com as reuniões como a recentemente promovida por ele no Vaticano sobre os abusos sexuais.

Compete aos participantes deixarem-se impregnar pelo ímpeto reformista do Papa e traduzirem nas suas realidades concretas as preocupações expressas nessas reuniões magnas. Os bispos alemães deram na semana passada um bom exemplo disso. Não ficaram indiferentes aos desafios propostos pelo Papa à Igreja e, na sua reunião plenária, decidiram colocar as igrejas de que são responsáveis em caminho sinodal. Ou seja, querem que a igreja católica alemã reflita sobre o celibato, discuta os ensinamentos da Igreja sobre a sexualidade e que se proponham medidas concretas que levem à redução do poder clerical e promovam uma maior participação laical.

Os bispos alemães querem convocar para esta reflexão, não só os clérigos, mas também os leigos. Se os primeiros podem dar o seu contributo para repensar o celibato, os segundos serão decerto mais relevantes na reflexão sobre o exercício da sexualidade.

A Igreja alemã já tinha dado um bom exemplo na preparação do encontro que o Papa promoveu para refletir sobre os abusos sexuais no interior da Igreja Católica, ao promover um estudo independente encomendado às universidades de Mannheim, Heidelberg e Giessen. Esse estudo demorou quatro anos a ser elaborado, tendo-se debruçado sobre os abusos de menores cometidos na Alemanha entre 1946 e 2014. Foi apresentado no final de setembro do ano passado e, nas conclusões, destacou-se que o abuso de poder e o clericalismo permitiram que os casos de abusos não fossem denunciados e que se tenham perpetuado ao longo de décadas.

Teria sido bom que noutros países - em vez de se tentar negar a relevância deste e de outros assuntos - tivesse havido a coragem dos bispos alemães de, primeiro, estudar aprofundadamente as questões envolvendo académicos independentes e, depois, tirar as conclusões e as devidas consequências. Não há melhor método para promover um caminho sinodal sério, empenhado, com a participação de todos.

* Padre

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