Opinião

A encíclica que quase permitiu os contracetivos

A encíclica que quase permitiu os contracetivos

Paulo VI chegou a aprovar, no dia 9 de maio de 1968, uma encíclica em que não se opunha ao uso de contracetivos. Estava destinada ser publicada com a data de 23 de maio, o dia da Ascensão. Foi mesmo impressa a sua versão oficial em latim com o título "De nascendae prolis" (sobre o nascimento das crianças). Porém, quando estava a ser traduzida para outras línguas, surgiram dúvidas e Paulo VI travou a sua publicação. Mandou reescrevê-la e acabou por publicar a "Humanae Vitae", com data de 25 de julho desse mesmo ano. Esta manteve a doutrina tradicional da Igreja Católica de só admitir os métodos naturais de contraceção.

Todo o atribulado processo de redação do mais polémico texto de Paulo VI é descrito no livro "O nascimento de uma encíclica. Humanae Vitae à luz dos Arquivos do Vaticano", de monsenhor Gilfredo Marengo. Esta obra é o resultado de anos de investigação nos arquivos do Vaticano que o Papa Francisco, excecionalmente, autorizou que o teólogo consultasse: é que ainda não passaram os 70 anos exigidos, por norma, para que os documentos da Santa Sé sejam disponibilizados.

Na época a encíclica foi muito mal recebida e significou um balde de água fria para os que acreditavam que Paulo VI - na linha de abertura do Concílio Vaticano II, que ele próprio liderou - iria abrir a possibilidade da contraceção, no âmbito do que ele tinha definido como uma "paternidade responsável". Este conceito, aliás, permaneceu na encíclica, mas somente para ser vivido com o recurso a métodos naturais.

O livro, para além de demonstrar que, de facto, essa era a posição do Papa, mostra também que ele não estava sozinho. Tanto no seio da comissão criada por João XXIII para estudar o assunto, como entre os bispos que enviaram a sua opinião a Paulo VI, era maioritário o número dos que defendiam a abertura à utilização de anticoncecionais pelos casais católicos. No primeiro Sínodo dos Bispos, em 1967, Paulo VI tinha solicitado aos bispos presentes que lhe enviassem as suas reflexões sobre o assunto. Responderam-lhe 26 dos cerca de 200 presentes. Desses, apenas sete eram contrários à utilização de contracetivos.

Apesar de todo este apoio à correção da doutrina tradicional da Igreja sobre o tema, o Papa acabou por optar pela posição minoritária. Para Marengo, isso deveu-se, sobretudo, às críticas contundentes vindas da Congregação para a Doutrina da Fé.

Tendo em conta a ebulição que se vivia no Mundo nesse ano de 1968, é natural que o Papa Paulo VI tenha hesitado em contribuir ainda mais para um entendimento demasiado permissivo e hedonista da vivência da sexualidade. Propôs, por isso, a resposta que em consciência lhe parecia adequada àquele contexto. O que Paulo VI não imaginava é que a sua encíclica iria atrasar tanto a abertura da Igreja ao uso dos anticoncetivos. Só quase 50 anos depois é que Bento XVI, depois de uma primeira viagem a África dominada pelo problema da sida e do uso dos preservativos, se atreverá a dizer que não os usar pode ser imoral.

PADRE

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