Opinião

A Igreja tem de se desinstalar

A Igreja tem de se desinstalar

Quando alguém se interessa por acompanhar o fenómeno religioso, não pode ficar indiferente a um estudo sobre "Religião e espaço público". É o caso do trabalho elaborado pelo Centro de Investigação em Teologia e Estudos de Religião, da Universidade Católica do Porto, publicado agora pela Fundação Francisco Manuel dos Santos

Ao procurar o estudo no sítio da Fundação verifica-se que o título da publicação é, afinal, "Identidades religiosas na Área Metropolitana de Lisboa". Para o leitor que não é da capital, há a desmotivação de ver no estudo a confirmação da velha máxima que o que interessa é Lisboa e o resto do país é paisagem. Vencida essa resistência e mergulhando no estudo, percebe-se que faz algum sentido essa opção, dado que, num outro estudo do género, intitulado "Identidades religiosas em Portugal" (2011), se constatou que Lisboa é a zona do país com maior diversidade religiosa.

Entre outras conclusões, destaco que os que se afirmam católicos, apesar de ainda serem mais de metade dos inquiridos, continuam a diminuir nesta região, a qual já era aquela em que a fé católica menos influência tinha. Quanto aos que se afirmam como crentes, mas que não se identificam com nenhuma religião, mais que duplicaram desde 2011. Passaram de 6,1% para 13,1%. Outro dado relevante: somando esses com os que se dizem ateus (10%), agnósticos (6,9%) e indiferentes (4,9%), obtém-se o total de quase 35% da população de Lisboa. Ou seja, os dois grandes grupos são os católicos e os que não se identificam com qualquer organização religiosa, ou as rejeitam.

Se considerarmos que entre os católicos só 15,8% se declaram praticantes - e que 1,4% da população inquirida considera que frequentar o culto é uma obrigação - então a esmagadora maioria, na verdade, ou não tem fé, ou a sua fé prescinde da inserção numa comunidade concreta, e, consequentemente, de uma prática religiosa comunitária. Quanto àqueles que são crentes, compram no supermercado da fé o que lhes interessa e que lhes dá jeito, prescindindo de tudo o que não lhes agrada ou lhes exige algum tipo de compromisso com os outros. Vivem uma fé individualista, tantas vezes traduzida pela expressão "eu cá tenho a minha fé".

Este elevado número de pessoas que gravitam longe das comunidades católicas constituem um desafio decisivo para a Igreja. As conclusões deste estudo desafiam-na a ter a coragem de abandonar, não 99 ovelhas para ir à procura da que anda desgarrada, como fala Jesus Cristo no Evangelho, mas de ir à procura das 99 sem negligenciar a que ainda permanece no redil. Esta será a "Igreja em saída", a Igreja que vai ao encontro das "periferias geográficas e existenciais", que o Papa Francisco tem preconizado.

O Ano Missionário que a Igreja Católica celebra em Portugal deve ser vivido neste dinamismo, procurando os que andam afastados. Acolhendo bem no seu seio os que a procuram, ou que dela precisam. O exemplo e a palavra de Cristo nunca foram tão atuais, nem tão necessários, como hoje.

*Padre

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