Opinião

A Igreja de Francisco é mais evangélica

O Papa Francisco obrigou a Igreja a corrigir a sua posição em relação à pena de morte. Até agora, como se podia ler no Catecismo da Igreja Católica, em "casos de extrema gravidade" admitia-se que se pudesse aplicar essa pena. O Papa Francisco mandou corrigir o artigo 2667 para que fique claro que o discurso oficial da Igreja não aprova, em nenhuma circunstância, a pena de morte. Este passou a dizer que "a Igreja ensina, à luz do Evangelho, que "a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa" e empenha-se com determinação a favor da sua abolição em todo o Mundo". Esta formulação integra uma citação de um discurso do Papa Francisco em 2017.

Este é, na verdade, um passo que leva a Igreja a ser mais fiel aos ensinamentos de Jesus Cristo no Evangelho e a estar mais de acordo com a sua práxis, a qual preferia vincar a imagem de um Deus misericordioso, em vez de um Deus justiceiro e castigador. Para o teólogo espanhol, Xabier Pikaza, "ao justificar a pena de morte, a Igreja foi infiel ao Evangelho". Só agora, ao considerá-la "inadmissível", a Igreja fez a passagem do Antigo para o Novo Testamento.

Ao rever a sua posição, ainda que muitos anos depois do desejável, "por fim a Igreja Católica atreve-se, neste campo, a ser cristã", afirma Xabier Pikasa. "Por fim, tem a ousadia de acreditar no Evangelho, com o que implica de "fé na vida" e de superação de um tipo de "lei punitiva", marcada pela lei do talião do olho por olho e dente por dente".

De facto, quem aceita a pena de morte e a prisão perpétua não acredita na possibilidade de uma pessoa se converter, e, apesar dos seus muitos e graves erros, recomeçar uma vida nova. A questão é que esta não é uma forma cristã de encarar a vida e a condição humana. Pelo contrário, esvazia completamente e retira qualquer sentido à entrega de Jesus na cruz, que veio para salvar o que andava perdido e demonstrar que há "mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão" (Lc. 15, 7).

Para além disso, a Igreja cometia uma grave incongruência ao vincar tanto a inviolabilidade da vida humana em situações como o aborto e a eutanásia e, ao mesmo tempo, a abrir mão desse seu princípio ao admitir a pena de morte. Ainda bem que, graças à determinação do Papa Francisco, a Igreja se reencontrou com a beleza da misericórdia divina que respira em todas as páginas do Evangelho. E pode, assim, ser mais determinada na defesa da vida.

* PADRE