Praça da Liberdade

Como a Igreja pode aproveitar a tecnologia

As palavras do Papa pronunciadas em S. Pedro na Audiência Geral das quartas-feiras, no Angelus de domingo ou nas viagens internacionais, vão poder ser ouvidas em tempo real traduzidas em seis línguas. Isto graças a uma aplicação para telemóvel que vai ser testada amanhã, no encontro que o Papa vai ter com cerca de 60 mil acólitos de mais de uma dúzia de países.

A Igreja vai-se abrindo à utilização das novas tecnologias nas suas atividades e celebrações. Uma evolução muito lenta, para alguns. Que exige algumas cautelas, para outros. E liminarmente rejeitada por outros tantos.

Nos meios urbanos, mesmo em Portugal, já é normal o recurso à tecnologia nas paróquias. Há aplicações móveis que facilitam o acesso ao horário das missas ou da confissão. Em algumas igrejas é utilizada a projeção de cânticos e de imagens durante a celebração da Eucaristia. Ora, estes meios podem, e devem, ser também estendidos ao meio rural.

No interior do país é cada vez mais frequente confiar ao mesmo sacerdote dezenas de comunidades ou aldeias a muitos quilómetros de distância umas das outras. Ainda nas recentes nomeações divulgadas pela diocese de Bragança-Miranda se pode verificar que um sacerdote vai assumir 34 aldeias.

A legislação atual da Igreja, para dignificar a Eucaristia e prevenir o esgotamento dos padres, prevê que cada sacerdote só celebre uma missa por dia. Excecionalmente, se tem várias comunidades, pode celebrar duas à semana e três aos domingos e dias santos. E só em casos particulares, com autorização da Santa Sé, quatro. Muitos fiéis não têm consciência destas normas e muitos sacerdotes, dadas as solicitações das comunidades, também não as cumprem. Um padre admitiu, num conselho presbiteral, que celebrou seis missas num determinado dia santo por não ter conseguido dizer não aos fiéis.

Tendo em conta o que está estabelecido pela Igreja, o sacerdote de Bragança de que falámos demorará meses a ir a todas as comunidades ao domingo. Existem, no entanto, soluções tecnológicas que podem permitir aos párocos estar "presentes" nas várias comunidades a seu cargo todos os domingos. A missa de um dos lugares pode ser particularmente cuidada para ser transmitida online, de forma rotativa, para outras comunidades. Estas reunir-se-iam ao domingo na Igreja e, com um ministro extraordinário da comunhão, até poderiam comungar durante a transmissão.

Dizem os liturgistas que isto não é possível porque seria simular um sacramento através dos meios de comunicação. Algo que a Igreja sempre rejeitou, ao exigir a presença física para que o sacramento aconteça.

Será correto exigir o respeito por esta norma e aceitar que os padres não cumpram a legislação da Igreja? Será melhor as pessoas reunirem-se na igreja e receberem a comunhão, ou assistirem isoladamente à missa pela televisão nas suas casas?

São questões para que quem de direito refletir e fazer o discernimento se se poderá, ou não, trilhar este caminho. As tecnologias estão disponíveis. E o Papa Francisco está a utilizá-las cada vez mais.

* PADRE