Opinião

Cristãos regressam a Nínive

A cidade bíblica de Nínive, mencionada no Livro de Jonas, deu o nome à província iraquiana de Ninawa, onde se situa a terceira maior cidade do país: Mossul. Esta foi ocupada pelo autoproclamado Estado Islâmico entre junho de 2014 e dezembro de 2017, tendo esse grupo terrorista promovido uma limpeza étnica e religiosa. Todos os que não professavam a fé em Alá, segundo a tradição sunita, ou se convertiam, ou tinham de abandonar a região para salvar vida. Mesmo os sunitas mais moderados ou os xiitas não escaparam à perseguição, mas a intolerância religiosa fustigou particularmente os islamitas curdos e os cristãos da região.

As casas dos cristãos foram assinaladas com a letra "n" do alfabeto árabe, a inicial da palavra "Nazareno", o nome depreciativo dado aos cristãos em ambientes islâmicos. Os seus habitantes foram despojados de todos os bens e tiveram de optar entre o exílio ou a morte.

Na noite de 6 para 7 de agosto de 2014, abandonaram a cidade de Mossul os últimos três mil cristãos. Acabava, assim, uma presença cristã de dois mil anos que sobrevivera às controvérsias teológicas e heréticas dos primeiros séculos do cristianismo, às perseguições turcas e mongóis - e que aprendera a conviver com a cultura árabe, arabizando-se nos seus costumes mas mantendo a sua fé cristã.

Com a derrota do Estado Islâmico, mais de 8800 famílias cristãs têm regressado à planície de Nínive durante este ano. Para que os cristãos pudessem voltar a este território, foi necessário reconstruir milhares de casas e de igrejas. Pela primeira vez na história, os líderes de diferentes igrejas cristãs - da Igreja Caldeia, da Sírio-Católica e da Sírio-Ortodoxa - reuniram-se e criaram, em 2017, a Comissão de Reconstrução de Nínive.

Entretanto, já regressaram quase metade dos cristãos expulsos pelo Estado Islâmico. Graças à reunião de esforços dos líderes religiosos, foi também possível restaurar cerca de cinco mil edifícios. Só a "Ajuda à Igreja que Sofre", uma Fundação Pontifícia da Igreja Católica, conseguiu reunir fundos em todo o Mundo para reconstruir 568 casas na região. Mas ainda muito há a fazer até se conseguirem restaurar os 13 555 edifícios danificados pelos terroristas, dos quais 1234 casas foram destruídas, 3155 queimados e 9166 foram parcialmente destruídos, segundo a Comissão de Reconstrução.

Paralelamente, desenvolve-se uma colaboração entre o Governo iraquiano e a Santa Sé para promover a fixação dos cristãos na região e evitar que eles emigrem. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Iraque revelou esta coordenação de esforços numa notícia da "Agenzia Nova", sublinhando que "os cristãos são parte integrante do povo iraquiano: estamos felizes com a sua presença e pretendemos protegê-los".

Desta forma se vai restaurando aos poucos a presença cristã no Iraque. Em 2003, eram cerca de um milhão e meio, concentrando-se a maioria na província de Ninawa. Hoje, estão reduzidos a trezentos mil, dos quais dois terços continuam refugiados no Curdistão iraquiano.

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