Opinião

O silêncio do Papa e outros silêncios

O Papa Francisco, no voo de regresso de Dublin, preferiu não comentar a carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, que o acusava de conhecer o comportamento pedófilo do cardeal norte-americano McCarrick. De facto, sem refutar ou confirmar o que escreveu Viganò, o Papa apelou à "maturidade profissional" dos jornalistas e que eles retirassem as suas conclusões da leitura do referido documento.

Alguns jornalistas fizeram o seu trabalho e rapidamente comprovaram a falsidade das afirmações de Viganò. A credibilidade das acusações desmoronou-se. O estranho silêncio do Papa, criticado por alguns dos vaticanistas, acabou por estimular o bom jornalismo.

Não é a primeira vez que o Papa se remete ao silêncio quando se levantam suspeitas graves em relação à sua atuação. Nos anos 70, foi acusado de colaborar com a ditadura na Argentina e denunciar sacerdotes que foram torturados e mortos pelos militares. Essas acusações reapareceram quando foi eleito Papa. Mas, graças às investigações de alguns jornalistas, veio a demonstrar-se que, não só não os denunciou, como, de forma discreta, conseguiu salvar muitos deles da morte. Nello Scavo, que publicou "A lista de Bergoglio", é um desses jornalistas que reuniram o testemunho de vários perseguidos políticos salvos pelo, então, padre Jorge Bergoglio.

O ataque de Viganò é mais um dos que têm surgido ao longo deste pontificado. Ele revela uma "campanha organizada pelos ultraconservadores para ferirem de morte o Papa Francisco", como corajosamente denunciou o cardeal António Marto. Que não se calou.

Já outras vozes - que num passado recente se apressavam a defender o Papa e que zurziam todos os que se atreviam a emitir alguma discordância em relação à sua atuação e à orientação que estava a imprimir à Igreja - agora não se ouviram. Talvez porque, embora anseiem pela saída de cena deste Papa, não querem ser identificados com os "ultraconservadores", nem assumir as suas críticas às reformas que ele está a introduzir - e que abominam. Aos poucos, lá vão fazendo a sua declaração genérica de fidelidade ao Papa, mas sem se comprometerem.

Já que uns estão organizados e outros se calam, era importante que aqueles que se reveem nas reformas que o Papa está a implementar encontrassem formas de demonstrar o seu apoio. Isto sem prejuízo de, como no passado, continuarem a manter uma atitude crítica em relação ao que cada Papa diz e faz.

O Papa não é Deus e, como qualquer ser humano, pode errar. Deve é ser avaliado pelo que quer mudar na Igreja e no Mundo.

*Padre