Opinião

Papa encoraja o cardeal de Lisboa

O cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, enviou ao Papa Francisco, na Quaresma, a "Nota para a receção do capítulo VIII da exortação apostólica "Amoris Laetitia"". Foi a Nota que tanta polémica suscitou em Portugal por recomendar aos recasados "a vida em continência".

O Papa endereçou-lhe uma carta datada de 26 de junho, que foi publicada no site do Patriarcado no passado dia 12 de julho. O Papa não refere a continência na sua missiva, preferindo pedir ao "Irmão Cardeal e seus colaboradores no ministério pastoral" para "prosseguirem, com sabedoria e paciência, no compromisso de acompanhar, discernir e integrar a fragilidade que, de variadas formas, se manifesta nos cônjuges e nos seus vínculos".

A omissão do Papa foi lida como uma chamada de atenção ao patriarca de Lisboa e ao seu clero para procurarem estar mais em sintonia com as perspetivas abertas pela exortação apostólica. Em vez de proporem caminhos, considerados retrógrados, que ela não prevê, devem procurar trilhar o caminho traçado pelos verbos que dão o título ao capítulo VIII da exortação: "Acompanhar, Discernir e Integrar a Fragilidade".

Na verdade, quando a Nota foi divulgada, foi dado tanto destaque a uma proposta que, no contexto do documento, não tinha grande relevância, que passou praticamente despercebido o essencial da reflexão produzida.

Não é de estranhar, portanto, que o Papa passe ao lado da questão e prefira chamar a atenção para o que verdadeiramente interessa no documento: orientar os sacerdotes no exercício do seu ministério pastoral e aplicar ao Patriarcado a reflexão, proposta pelo Papa, quanto ao acolhimento dessas situações tão delicadas. Trata-se, aliás, de um texto dirigido ao clero de Lisboa e escrito a pensar nos seu fiéis. Embora muitos pensem que o patriarca é o "chefe" da Igreja em Portugal, as suas determinações não se aplicam a todo o país, uma vez que cada bispo é responsável pela sua diocese.

Voltando a Francisco, o que ele sublinha na missiva é a sua alegria e gratidão. Exprime o seu contentamento pela "aprofundada reflexão" que foi feita, a qual revela bem o "esforço do pastor e pai que, consciente do seu dever de acompanhar os fiéis, quis fazê-lo começando pelos seus presbíteros para poderem cumprir da melhor forma o ministério".

O Papa está consciente de que "as situações da vida conjugal constituem, hoje, um dos campos onde tal acompanhamento é mais necessário e delicado" e, por isso, está grato pelo caminho que se iniciou em Lisboa. Dirige, também, uma palavra de encorajamento a todos os que têm a missão de acompanhar os casais, particularmente os que vivem situações que, no passado, eram consideradas "irregulares" e que hoje são assumidas como de "fragilidade" ou "famílias feridas", como o Papa as classificou no Sínodo dos Bispos de 2015.

O Patriarcado, ao tornar pública a carta que o Papa dirigiu a D. Manuel Clemente, assume-a claramente como um estímulo à sua ação pastoral nesta área tão delicada. O incidente da Nota parece estar ultrapassado.

* PADRE