Opinião

As dioceses têm de escutar as cidades

As dioceses têm de escutar as cidades

O Papa Francisco denunciou a tentação de responder aos problemas com estruturas, planos pastorais ou sínodos que não escutam as pessoas e que, sobretudo, são insensíveis aos problemas reais que as afetam. Chamou-lhe a "ditadura do funcionalismo" no encerramento do ano pastoral da diocese de Roma, no qual participaram os seus bispos auxiliares, sacerdotes, religiosos e centenas de leigos.

O bispo de Roma quer que a sua diocese escute a cidade e seja sensível aos gritos dos que sofrem: os órfãos, os toxicodependentes, as famílias que passam dificuldades, os pobres, os estrangeiros, os idosos, as pessoas com deficiência. Quer que esteja atenta aos que perderam a fé, ou que nunca a tiveram. Os que querem verdadeiramente promover o outro têm de desenvolver uma atitude de humildade. Vencer a tentação de se sentirem superiores, para se colocarem ao seu serviço. "Ai daqueles que olham de alto e desprezam os pequenos", disse o Papa.

Segundo ele, é preciso ir ao seu encontro desinteressadamente, como o Bom Pastor que vai à procura da ovelha perdida sem qualquer interesse pessoal, a não ser que nenhuma se perca. Foi isso que fez Jesus. Deixou as noventa e nove para ir à procura da que andava perdida. "Nós, muitas vezes, estamos obcecados com as poucas ovelhas que permaneceram no redil. E tantos deixam de ser pastores de ovelhas para se tornarem "penteadores" de ovelhas requintadas. E gastam todo o seu tempo penteando-as. Muitas? Não. Dez ... coisa pouca. O que é mau. Nunca encontramos coragem para procurar as outras, aquelas que estão perdidas, que percorrem caminhos que nunca desbravámos", afirmou o Papa.

Para escutar a cidade e ter uma proposta para os seus problemas é necessário, segundo o Papa, percorrer o caminho das Bem-Aventuranças. Esse discurso em que Jesus proclama bem-aventurados os pobres, os que passam fome, os que choram... Para o Papa, as Bem-Aventuranças só são compreendidas pelos que aprenderam com Jesus e com a vida "onde está a verdadeira alegria, aquela que o Senhor nos dá, e saber discernir onde encontrá-la e fazer com que os outros a encontrem". Em comunidades que acolham "as pessoas, feridas pela vida ou pelo pecado, os pequeninos que clamam a Deus", sem sobranceria, mas com humildade, respeitando-as e envolvendo-as em "relações verdadeiramente humanas". Em que elas se sintam de novo pessoas em vez de descartáveis da sociedade.

O Papa propôs duas preocupações fundamentais aos seus diocesanos. A primeira, "exercitar um olhar contemplativo sobre a vida das pessoas que habitam a cidade". Ou seja, "entender como as pessoas vivem, como pensam". A segunda, "exercitar um olhar contemplativo sobre as novas culturas que se geram na cidade".

Escutando o discurso do Papa aos diocesanos, fica-se com a impressão que ele dá pouco valor aos planos pastorais, às estruturas ou organizações diocesanas. Não se trata disso, porém. O que ele alerta é para a sua inutilidade se não estiverem ao serviço das pessoas, em particular dos mais pobres e dos mais pequenos.

*Padre