Opinião

É preferível congregar que condenar

É preferível congregar que condenar

Os conflitos, as divergências, os desentendimentos no seio da Igreja, são naturais e humanos. Já as ruturas e as divisões, para além de serem sinal da incapacidade de dialogar e de encontrar soluções para os problemas, configuram um contratestemunho inaceitável.

A Igreja na sua génese é a comum unidade dos fiéis reunidos em torno de Cristo, o seu único pastor, que caminha para a Casa do Pai, congregada e conduzida pela ação do Espírito Santo. Quando outros interesses falam mais alto que a voz do Espírito, então abafa-se o dinamismo que gera a comunhão. Abre-se caminho à divisão, ao desentendimento, a situações como a que se viveu durante 42 anos na paróquia madeirense de Ribeira Seca.

São situações que não são queridas por Deus, nem levam a Deus. Por isso, sempre que uma situação como esta é resolvida, e se restaura a comunhão, deve ser louvada e motivo de alegria. Não só neste caso para os fiéis madeirenses e daquela paróquia, mas para toda a Igreja. Através de pessoas concretas, D. Nuno Brás, bispo do Funchal, e o padre José Martins Júnior, o Espírito atuou e restabeleceu a comunhão. Pôs-se fim a um diferendo lamentável que impedia, há décadas, o bispo do Funchal de visitar aquela comunidade.

O padre Martins Júnior, que nunca abandonou o seu rebanho, viu agora legitimada a sua ação pastoral na Ribeira Seca e foi reintegrado no presbitério da diocese do Funchal. Regressou à comunhão com o seu bispo. Os fiéis, que nunca perderam a ligação à Igreja e puderam, durante décadas, continuar a celebrar os momentos mais significativos da sua vida graças ao zelo e dedicação do padre Martins Júnior, deixam de viver à margem da diocese e todos os sacramentos, até agora feridos na sua validade, são sanados.

Também D. Nuno Brás se engrandeceu, assumindo agora a sua missão de pastor de todo o território da diocese. Já nada o impede de celebrar quando quiser na paróquia de Ribeira Seca e fazer caminho com os fiéis daquela comunidade. Por vezes terá de ir à sua frente, outras no meio deles e outras atrás, animando e amparando os mais frágeis, como o Papa Francisco tem recomendado aos pastores.

Pede-se aos bispos e aos padres que com eles colaboram que sejam firmes na forma como orientam as suas comunidades. Mas também devem evitar ruturas e salvaguardar a unidade. Isso só se consegue com alguma flexibilidade - e pondo, acima de tudo, não os interesses pessoais, mas o bem das pessoas que são chamados a servir. Mesmo quando as leis eclesiásticas estão do seu lado, executá-las sem qualquer contemporização pode ser contraproducente, ferir de morte qualquer possibilidade de entendimento e causar danos irreparáveis na unidade que se é chamado a edificar.

Não foi essa a forma de atuar de Jesus Cristo. Nem é esse o estilo que o Papa Francisco está a impor à Igreja. Felizmente, hoje, também graças ao Papa, vive-se um ambiente de maior acolhimento, misericórdia e reconciliação. É muito mais evangélico do que aquele que é inquinado pelas excomunhões, suspensões ou condenações.

*Padre