Opinião

Frei Bartolomeu, precursor de Francisco

Frei Bartolomeu, precursor de Francisco

O Papa Francisco decidiu declarar santo Frei Bartolomeu dos Mártires na sexta-feira, prescindindo da exigência de um segundo milagre para a sua canonização. Este procedimento é adotado quando alguém já é popularmente venerado como santo há muito tempo. É o que sucede com este prelado, arcebispo de Braga entre 1559 e 1582, o qual, mesmo antes da sua morte em 1590, já era considerado como um homem santo, pai dos pobres e dos enfermos.

É o terceiro português, depois dos pastorinhos Francisco e Jacinta, que Francisco declara santo. O quarto, se considerarmos S. José Vaz, nascido em Goa em 1651, conhecido como o apóstolo do Sri Lanka. Mas, mesmo sem considerar este, Francisco já é o Papa que reconheceu a santidade a mais portugueses.

Curiosamente, todos os quatro foram beatificados por João Paulo II, embora este pontífice não tenha chegado a canonizar nenhum português. Apesar disso, foi o Papa que proclamou mais beatos e santos desde que em 1556 foi criada a Congregação dos Ritos (hoje Congregação para as Causas dos Santos), o organismo que analisa os processos de beatificação e canonização. Ao todo foram 1338 beatos e 482 santos.

Frei Bartolomeu dos Mártires, quase 500 anos antes de Francisco, viveu preocupações muito semelhantes às que caracterizam o atual pontificado. Ambos elegeram os mais pobres como os destinatários principais da sua ação pastoral.

O santo arcebispo de Braga participou no Concílio de Trento. É considerado como um dos padres conciliares mais relevantes, tendo-se empenhado para que a reforma da Igreja englobasse também os cardeais. Acabaria por ser derrotado nessa sua pretensão. Hoje o Papa Francisco esforça-se, tal como ele, para promover uma reforma na Igreja que englobe a Cúria Romana e os seus cardeais.

O Papa pede aos dignitários da Igreja que prescindam de toda e qualquer sumptuosidade e assumam um estilo de vida mais despojado e austero. Pela parte que lhe toca, tem dado o exemplo. O mesmo fez S. Bartolomeu dos Mártires no seu tempo, tendo sido tão exigente consigo e vivido em tal simplicidade que era criticado pelos outros bispos pelo seu exagero.

Apesar de a sua arquidiocese ir, na altura, do Minho a Trás-os-Montes, Frei Bartolomeu dos Mártires visitou todas as paróquias, mesmo as mais distantes, em tempos em que se viajava a cavalo. A sua preocupação de ir às periferias era a mesma a que Francisco se refere.

Apesar de estar comprovado que o santo arcebispo de Braga não terá defendido o fim do celibato no Concílio de Trento, sabe-se que não o via como essencial para o sacerdócio, mas como conveniente. Hoje o Papa Francisco continua a propor essa disciplina na Igreja, mas aceita revê-la em certas circunstâncias, como a da Amazónia.

Apesar de separados por quase meio milénio, verifica-se uma grande sintonia entre estes dois homens, Francisco e Bartolomeu. Ambos traduzem nas suas vidas os valores essenciais do Evangelho, movendo-os, acima de tudo, a preocupação em servir com dedicação e despojamento aqueles que lhes estão confiados.

*Padre