Opinião

Igreja inicia diálogo com a ideologia de género

Igreja inicia diálogo com a ideologia de género

A ideologia de género defende que não faz sentido distinguir as pessoas entre homens e mulheres, classificando-as pela sua orientação sexual. Procura assim combater a discriminação das pessoas que não se enquadram numa relação heterossexual.

O seu objetivo é dar resposta aos que, apesar de terem nascido homens ou mulheres, não se reconhecem como tal. E luta pelo respeito dos que defendem outros tipos de organização familiar que não a monogâmica.

Esta ideologia tem vindo a impor-se, implicando até mudanças legislativas em muitos países, como o nosso: é o caso do casamento de homossexuais ou a legalização da mudança de sexo. Neste contexto, muitos daqueles que continuam a defender a sua visão da família como constituída por pai, mãe e filhos, e colocam reservas ou questões à ideologia de género, são considerados retrógrados e acusados de continuar a defender e a impor uma conceção patriarcal que não respeita as diferenças e as liberdades individuais.

A Congregação para a Educação Católica, na semana passada, tornou pública uma reflexão sobre estas questões e a sua relevância na educação dos mais novos. Foi muito mal recebida pelos defensores da ideologia de género, quando o documento pretende precisamente entrar em diálogo com essa forma de pensar. Este é, talvez, o primeiro esforço sério da Igreja para estabelecer pontos de encontro com a questão do género - sem contudo renunciar àquela que é a sua conceção da família e da sexualidade.

O documento começa por fazer uma descrição séria de estudos em torno da questão do género, muito dos quais procuraram demonstrar "como a identidade sexual deriva mais de uma construção social do que de um dado natural ou biológico". A consequência é o pedido do "reconhecimento público da liberdade de escolha do género, e também da pluralidade de uniões, em contraposição ao matrimónio entre homem e mulher considerado herança da sociedade patriarcal".

Neste percurso, a Igreja acolhe alguns dos postulados das investigações sobre o género. Revê-se na luta contra as discriminações e todas as formas injustas de subordinação, por exemplo da mulher ao homem. Defende que a educação cristã deve promover nas crianças e nos jovens o respeito por "cada pessoa na sua peculiar e diferente condição, de modo que ninguém, por causa das próprias condições pessoais (deficiência, raça, religião, tendências afetivas, etc.)" possa ser discriminado. Acolhe também o contributo dessas investigações para a melhor compreensão dos "valores da feminidade".

Contudo, a Igreja continua a defender o modelo de família de pai, mãe e filhos, tal como sempre tem proposto. E continuará a ensiná-lo nas suas escolas porque um "Estado democrático não pode, de facto, reduzir a proposta educativa a um único modo de pensar". A ideologia de género, apesar dos seus contributos positivos, é avaliada negativamente em muitas das suas propostas.

A Igreja deve manter esta sua nova atitude de diálogo, mas sem renunciar à sua identidade e a uma visão crítica destas questões.

*PADRE