Opinião

O Papa e a usura que mata

O Papa e a usura que mata

Pedir dinheiro emprestado e pagar juros pelo empréstimo passou a ser algo normal e deixou de ser considerado usura. Ficou reservada esta classificação para empréstimos ilegais com juros altíssimos. No entanto, por vezes, algumas condições de crédito estão no limiar da agiotagem, tal como certas comissões e taxas que os bancos estão continuamente a introduzir e a ampliar.

Há em Itália um organismo que nos últimos 26 anos já resgatou mais de 25 mil famílias das garras dos usurários e de situações de endividamento descontrolado. Denomina-se o Conselho Nacional Antiusura João Paulo II. Começou a sua atividade no final dos anos 90 com o objetivo de organizar iniciativas dispersas e pessoais de alguns párocos e paróquias que ajudavam, como podiam, as pessoas sobre-endividadas. Foram-se criando fundações para corresponder ao apelo de uma renovada caridade que João Paulo II fez à Igreja no dealbar do novo milénio.

"É hora de uma nova "fantasia da caridade" que se manifeste não só nem sobretudo na eficácia dos socorros prestados, mas na capacidade de pensar e de ser solidário com quem sofre, de tal modo que o gesto de ajuda seja sentido, não como esmola humilhante, mas como partilha fraterna" (Novo Millennio Ineunte, n.º 50). Hoje, são 28 as fundações espalhadas por toda a Itália, com mais de uma centena de centros de escuta e cerca de mil voluntários que lutam contra a usura e apoiam as famílias endividadas.

Este sábado, o Papa Francisco recebeu cerca de 300 membros desta organização. A estes recordou que "a usura é um mal antigo e infelizmente ainda escondido que, como uma serpente, estrangula as vítimas". Por isso, "é preciso preveni-la, subtraindo as pessoas à patologia do débito feito para a subsistência ou para salvar a empresa". Para conseguir esse objetivo, o Papa pede aos voluntários da Antiusura que apostem na educação das pessoas para "um estilo de vida sóbrio, que saiba distinguir entre o que é supérfluo e aquilo que é necessário e que as capacite para não contraírem dívidas para obter coisas às quais se poderia renunciar".

A culpa, porém, não é só das pessoas, mas também das circunstâncias que as levam a endividarem-se e da falta de ética de tantos protagonistas de uma "economia que mata". O Papa - como em tantas outras vezes - voltou a lembrar que "a dignidade humana, a ética, a solidariedade e o bem comum deveriam estar sempre no centro das políticas económicas implementadas pelas instituições públicas". Lembrou ainda que "na base das crises económicas e financeiras existe sempre uma conceção de vida que coloca em primeiro lugar o lucro e não a pessoa".

É neste contexto que os voluntários são chamados a combater a usura e a "transmitir esperança e força às vítimas, para que possam recuperar a confiança e reerguerem-se". Têm, também, de apelar ao "sentido de justiça" dos que se aproveitam da debilidade das pessoas e levá-los a "tomar consciência de que em nome do dinheiro não se pode matar os irmãos".

Seria bom que esta experiência italiana se estendesse a outros países, nomeadamente a Portugal. As instituições de solidariedade católicas, para além da luta contra a pobreza, também devem promover a luta contra a usura e a apoiar devidamente as suas vítimas.

* PADRE

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