Opinião

Papa e Imã em sintonia com o ideário moderno

Papa e Imã em sintonia com o ideário moderno

O Papa Francisco e o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmed Al-Tayeb, reescreveram, em contexto inter-religioso, os valores da Revolução Francesa: Fraternidade, Igualdade e Liberdade.

Na visita do Papa Francisco aos Emirados Árabes Unidos, os dois líderes religiosos assinaram o "Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum". Este foi um dos momentos mais significativos da primeira visita de um Papa à Península Árabe.

O Papa e o Grande Imã traduzem o desejo de que os católicos e os muçulmanos adotem "a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério". É igualmente um "convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, mais ainda, entre os crentes e os não-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade".

Tanto o Grande Imã como o Papa estão convencidos de que "as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram - em algumas fases da história - da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens".

Com uma lúcida leitura da atualidade, ambos os líderes religiosos sustentam que as religiões, em vez de piorarem, podem e devem contribuir para a construção de um Mundo mais pacífico. Sublinharam os dois que "os verdadeiros ensinamentos das religiões convidam a permanecer ancorados aos valores da paz; a apoiar os valores do conhecimento mútuo, da fraternidade humana e da convivência comum".

Na verdade, a fraternidade humana faz todo o sentido entre pessoas que se descobrem filhos de um Deus e, por isso, irmãos. Nunca as religiões em geral, muito menos a Igreja Católica, deveriam ter abdicado desta conceção da humanidade. O que aconteceu no passado, e continua a ser uma tentação no presente, foi a reivindicação de um estatuto de privilégio. Ora todos têm a mesma dignidade, que é a de serem filhos de um Deus, ainda que invocado de diferentes formas.

Daqui resulta a radical igualdade "de direitos e deveres" entre todos os seres humanos postulada pela Revolução Francesa. O mesmo princípio é assumido neste documento como a garantia da "cidadania plena". Para o Papa e o Grande Imã, "igualdade" não é "uniformidade": por vontade de Deus, verifica-se nas pessoas uma diversidade "de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua". É por essa razão que a todos deve ser garantida a "liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de ação".

Só com um Papa franciscano e uma Igreja despojada - que se reconhece como pecadora e quer estar ao serviço da humanidade - seria possível integrar os melhores valores de uma revolução à qual a Igreja começou por reagir mal, tendo sido perseguida por isso. O que se proclama agora é que esses valores são os de Cristo - e que a Igreja nunca se deveria ter afastado deles!

*PADRE