Opinião

Papa Francisco, um idoso juvenil

Papa Francisco, um idoso juvenil

A Igreja precisa de se renovar continuamente na fidelidade à sua tradição. Os jovens são aqueles que, se lhe derem oportunidade, podem contribuir, com os seus anseios, as suas inquietações e os seus dinamismos, para essa renovação.

Contudo, não devem prescindir da sabedoria dos mais velhos quando estes podem ajudar a orientar essas energias juvenis, sem procurar domesticá-las ou adormecê-las, mas potenciá-las ao máximo.

O Papa Francisco, para ilustrar essa tensão, usou uma imagem feliz, proposta por um jovem das Ilhas Samoa no último Sínodo dos Bispos dedicado à temática da juventude. Dizia esse jovem que "a Igreja é uma canoa, na qual os idosos ajudam a manter a rota, interpretando a posição das estrelas, e os jovens remam com força, imaginando o que os espera mais além". A partir desta metáfora, conclui o Papa na Exortação Apostólica "Cristo Vive", publicada a semana passada: "Não nos deixemos extraviar, nem pelos jovens que pensam que os adultos são um passado que já não conta, que já está superado, nem pelos adultos que julgam saber sempre como se deveriam comportar os jovens. O melhor é subirmos todos para a mesma canoa e, juntos, procurarmos um mundo melhor, sob o impulso sempre novo do Espírito Santo" (n.º 201).

No mesmo texto, o Papa pede a Deus que "liberte a Igreja daqueles que querem envelhecê-la, ancorá-la ao passado, travá-la, torná-la imóvel" e "que a livre doutra tentação: acreditar que é jovem porque cede a tudo o que o mundo lhe oferece, acreditar que se renova porque esconde a sua mensagem e mimetiza-se com os outros" (n.º 35).

O Papa termina a Exortação com um apelo aos mais novos, no qual recorda as palavras proferidas num encontro com jovens italianos no Circo Máximo de Roma, a 11 de agosto de 2018: "Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e medrosos. Correi "atraídos por aquele Rosto tão amado, que adoramos na sagrada Eucaristia e reconhecemos na carne do irmão que sofre. O Espírito Santo vos impulsione nesta corrida para a frente. A Igreja precisa do vosso ímpeto, das vossas intuições, da vossa fé. Nós temos necessidade disto! E quando chegardes aonde nós ainda não chegamos, tende a paciência de esperar por nós"".

O Papa não é daqueles que querem os jovens para dar um ar juvenil à Igreja, mas que convivem mal com as questões que eles levantam. Os que gostam de jovens acríticos e bem-comportados, que não levantem ondas, nem põem em causa a autoridade e as tradições.

Aliás, o Papa tem, ao longo destes seis anos, levantado diversas questões que, noutros tempos, eram próprias de setores marcadamente juvenis. Por exemplo: porque é que os casados a viverem uma nova união não podem ter acesso aos sacramentos? Quem sou eu para condenar os homossexuais? Só lhe falta mesmo pôr a questão da ordenação das mulheres. Ou talvez não: embora diga que isso não está no seu horizonte, ao mandar estudar o diaconado no feminino e ao pugnar por um maior protagonismo da mulher na Igreja, já está a desbravar esse caminho.

Padre