Opinião

Páscoa para os excluídos e explorados

Páscoa para os excluídos e explorados

Durante a Semana Santa, a liturgia convoca os cristãos a acompanhar, a par e passo, a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Particularmente o Tríduo Pascal, que se inicia com a celebração da Última Ceia de Jesus com os seus discípulos na Quinta-feira Santa.

Foi aí que Jesus teve esse gesto admirável de lavar os pés aos apóstolos. Demonstrou, assim, que o seu poder não era dominar, mas estar ao serviço do outro.

Os bispos são os sucessores dos apóstolos e os continuadores dessa missão de servir os irmãos, com particular atenção aos mais desfavorecidos, aos marginalizados e aos que são explorados e espezinhados de tantas maneiras. O Papa Francisco, bispo de Roma, tem sabido ser fiel ao nome que escolheu e a essa missão.

No dia em que a Igreja celebra a morte de Cristo, a Sexta-feira Santa, alguns dos rostos concretos dos "excluídos da sociedade e os novos crucificados da história atual" foram lembrados nas 14 estações da Via-Sacra a que o Papa presidiu no Coliseu de Roma. Este ano, o Papa encarregou a Irmã Eugenia Bonetti, missionária da Consolata, de elaborar o texto que foi proposto à meditação dos fiéis, no Coliseu.

Esta religiosa é a presidente da associação "Slaves no More", que defende mulheres que sofreram violência e que combate o tráfico de seres humanos para exploração laboral e sexual. Conhece, por isso, muitas situações concretas, as quais foi desfiando ao longo das estações da Via-Sacra. Entre elas, falou do caso das "três africanas, pouco mais do que crianças, que aninhadas no chão ao redor de um braseiro aqueciam o seu corpo jovem seminu", quando uns "rapazolas, para se divertir, lançaram material inflamável no fogo, queimando-as gravemente". Ou "aquela menor de corpinho frágil, encontrada uma noite em Roma, com uma fila de homens a bordo de carros luxuosos para dela se aproveitarem".

Estas e muitas outras pessoas são os "novos crucificados", em que o "nosso coração endurecido pela indiferença" já nem repara nem se comove.

No passado, a Igreja Católica pregava de tal maneira o sofrimento de Cristo, que quase se esquecia de anunciar que o sofrimento, o pecado e a morte não têm a última palavra sobre o ser humano: Jesus venceu tudo isso ao ressuscitar. Quando instituições como a "Slaves no More" procuram aliviar o sofrimento humano, fazem-no como anúncio da ressurreição de Jesus, para que "a todos chegue a Boa Nova da redenção". Fazem-no com a convicção de que tudo o que fizerem a um destes mais pequenos é ao próprio Jesus que o fazem (cf. Mt. 25, 40).

Por tudo isso, João Paulo II acrescentou à Via-Sacra a 15.ª Estação: "Jesus Ressuscitou!". A Igreja começa a celebrá-lo na vigília do Sábado Santo, continua-o por todo o Tempo Pascal (os 50 dias que se seguem à Páscoa até ao Pentecostes) e renova-o todos os domingos do ano.

Celebrar a ressurreição de Cristo é, também, acordar para as situações degradantes a que são submetidos tantos homens e mulheres. É o dever de lhes limpar as lágrimas dos rostos e de nos pormos ao seu lado até que se levantem.

*Padre