Opinião

Um cardeal ao estilo de Francisco

Um cardeal ao estilo de Francisco

O Papa Francisco surpreendeu a igreja católica portuguesa com a nomeação cardinalícia de D. António Marto, bispo de Leiria-Fátima. O próprio nomeado o confessou no dia em que conheceu a nomeação: "Nunca me passou pela cabeça que iria ser nomeado cardeal. Fui apanhado completamente de surpresa!"

Desde o final do século XIX que não havia em Portugal Continental outro cardeal para além do patriarca de Lisboa. A 12 de maio de 1879, o Papa Leão XIII elevou ao cardinalato o bispo do Porto, D. Américo dos Santos Silva, que viria a falecer a 21 de janeiro de 1899, com 70 anos.

Desde a primeira hora D. António Marto considerou a sua nomeação como uma distinção, feita pelo Papa, à diocese de Leiria-Fátima e à Igreja portuguesa. A relevância mundial que o Santuário de Fátima tem terá contribuído para esta escolha, mas não terão sido essas as razões determinantes para a decisão do Papa Francisco.

No encontro com os jornalistas, D. António Marto destacou três aspetos na sua eleição para cardeal. Em primeiro lugar, entende que se trata de "um serviço que o Papa pede para o ajudar no governo, no seu ministério de bispo de Roma e pastor da igreja universal". Depois, é um sinal de "uma maior ligação entre a Sé de Pedro e as igrejas particulares", pretendida pelo Papa. Para a escolha recair em Fátima "terá contribuído a celebração do seu centenário, no qual o Papa experimentou ao vivo o que significa Fátima para a Igreja universal e para o Mundo".

Segundo D. António Marto, "o terceiro aspeto é um ato de confiança pessoal do Papa na minha humilde pessoa". Acrescentou depois: "Já estive em duas audiências com o Santo Padre, conhece bem o que penso e sabe que tem em mim um apoiante na reforma que está a fazer na Igreja - uma reforma na Igreja mais evangélica, mais próxima, mais misericordiosa". E concluiu: "Nisso ele pode contar comigo!"

Este aspeto, que D. António apresentou em último, será, porventura, o decisivo. Ao escolher um bispo para cardeal, sem ser por um qualquer privilégio histórico ou por tradição, é porque reconhece nele qualidades que lhe poderão ser úteis no colégio cardinalício para continuar as mudanças que está a promover.

"Este Papa está a levar para a frente uma reforma da Igreja para que esta seja mais evangélica. A Igreja serva, pobre, a Igreja de portas abertas para todos, a Igreja que oferece a misericórdia do Senhor em todas as situações. Isto é a marca deste pontificado. Uma Igreja que estende pontes para todos os lados, e que não vive fechada em si, que não é autorreferencial, que não está a contemplar o seu umbigo, que não está fechada só nos seus problemas internos, mas que procura construir um Mundo melhor", afirmou D. António Marto à agência Lusa. Esta é uma reforma em que ele se sente envolvido e que, nas suas palavras, é "para levar para a frente!"

O Papa Francisco sabe que o bispo de Leiria-Fátima está em plena sintonia consigo e que deseja, tanto quanto ele, a renovação da Igreja. Sabe também que ele é um dos maiores teólogos portugueses, com um destacado percurso académico e muita influência na formação do futuro clero. Foi por isso que o escolheu para o Colégio dos Cardeais, não por ser português ou bispo do Santuário de Fátima.

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