Opinião

No sexo como na política

No sexo como na política

Tanto quanto nos é dado a conhecer pelo Evangelho, Jesus Cristo procurava esquivar-se às questões de sim ou não, se é ou não lícito fazer isto ou fazer aquilo. Não dava receitas. Respondia às questões com uma nova questão, com uma história, uma parábola ou um desafio.

A Igreja é constituída por homens e por mulheres e estes, muitas vezes, não têm o discernimento de Jesus: caem na tentação de impor comportamentos concretos, em vez de proporem valores e desafios, de provocarem a reflexão e de levarem as pessoas a encontrar as soluções para os seus problemas.

Há áreas em que a Igreja já corrigiu procedimentos desse tipo. Tentar definir, por exemplo, qual seria o sistema político que melhor corresponderia aos ensinamentos do Evangelho. Acabou por compreender que não lhe competia essa definição, mas antes propor valores, defender a pessoa humana e denunciar tudo o que não está correto no exercício político, seja ele de Direita ou de Esquerda.

No campo da sexualidade, esse caminho ainda está por fazer e os responsáveis eclesiásticos, sobretudo os que têm maior responsabilidade, muitas vezes deixam-se levar pelos que acham que eles têm de ditar condutas concretas, em vez de exortarem os cristãos a assumir um comportamento livre e responsável, de acordo com os valores e as exigências do Evangelho. Só assim, aliás, se poderá ajudar cada um a fazer um discernimento sério e a assumir opções livres e responsáveis no exercício da sua sexualidade.

O problema é que até os papas, por vezes, não procedem à maneira de Jesus Cristo e resvalam para a prescrição de receitas em vez de proporem valores e provocarem a reflexão em torno deles. Aconteceu assim com Paulo VI ao cair no erro de definir se era lícito ou não usar a pílula. O mesmo com João Paulo II ao propor a abstinência sexual aos divorciados que contraíram uma nova união para poderem receber os sacramentos. Ou ao definir se os católicos podiam, ou não, usar o preservativo.

Felizmente, Bento XVI ainda foi a tempo de corrigir esse erro (em que ele próprio também começou por cair) e colocou a questão como ela deve ser colocada: há situações em que é imoral usá-lo, como há outras em que será imoral não o usar.

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Tal como no tempo de Jesus Cristo, há quem prefira que o Papa, os bispos e os padres digam o que se pode ou não se pode fazer. Compreende-se, porque se há coisa difícil de fazer é cada um ter de pensar, discernir e encontrar soluções justas para a vida. Esse era o medo dos fariseus, que no episódio da mulher adúltera não compreendiam como é que Jesus superava a dicotomia entre a Lei e a misericórdia.

Um dilema semelhante é hoje colocado ao Papa Francisco: um divorciado recasado vive em adultério, como pode ser perdoado? "Convém sempre considerar inadequada qualquer conceção teológica que, em última instância, ponha em dúvida a própria omnipotência de Deus e, especialmente, a sua misericórdia", começa por responder Francisco na exortação Amoris Lætitia. "Isto fornece-nos um quadro e um clima que nos impedem de desenvolver uma moral fria de escritório quando nos ocupamos dos temas mais delicados, situando-nos, antes, no contexto dum discernimento pastoral cheio de amor misericordioso".

Não é preciso ser sofisticado, a resposta está em Cristo.

*PADRE

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