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O bispo que prega do túmulo

O bispo que prega do túmulo

Pedro Casaldáliga, de origem catalã, tornou-se missionário claretiano e, em 1968, com quarenta anos, foi para o Brasil. Aí, gastou-se na defesa dos mais pobres, dos índios, dos explorados pelos latifundiários, dos sem-terra, ao longo de 52 anos.

Foi o primeiro bispo de São Félix do Araguaia, no estado do Mato Grosso, nomeado em 1971 por Paulo VI. Soube traduzir na vida as palavras de um dos seus poemas: "Não ter nada. Não levar nada. Não poder nada. Não pedir nada. E, de passagem, não matar nada; não calar nada".

Como bispo, colocou-se sempre ao lado dos mais pobres. Até as suas insígnias episcopais eram disso sinal: em vez da mitra, ornamento que os bispos usam na cabeça, aparecia com um chapéu de palha; como báculo utilizava um cajado indígena; e não tinha anel de ouro ou prata, mas um de tucum, feito de uma semente de uma palmeira da Amazónia.

Viveu até aos 92 anos, mas, por diversas vezes, foi ameaçado de morte. Ainda em 2012, foi retirado pela polícia para um lugar secreto para evitar que fosse assassinado. Como impõem as normas da Igreja, já tinha renunciado ao seu cargo em 2005. Mas como bispo emérito continuou a sua luta até à morte - e até depois dela.

Deixou instruções para ser sepultado num cemitério abandonado nas margens do rio Araguaia, da sua diocese, onde eram sepultados os que não tinham terra nem para serem enterrados. Pediu que o seu túmulo não tivesse qualquer ornamento, apenas terra e uma cruz. Como epitáfio deixou o refrão de um poema, o seu último grito em defesa dos mais pobres: "Para descansar eu quero só esta cruz de pau com chuva e sol, estes sete palmos e a Ressurreição!".

Pedro Casaldáliga morreu como viveu e continua a falar a partir da sua tumba. E envergonha-nos a nós, pastores, quando acumulamos o que não necessitamos. Quando nos deixamos seduzir por uma lógica de autopromoção e nos esquecemos dos que somos chamados a servir. Quando estamos sempre a olhar para a paróquia ou para a diocese do lado, em vez de nos gastarmos a servir a que nos está confiada. Quando nos calamos perante a exploração dos mais fracos para não afrontar os poderosos.

Padre

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