Opinião

O peregrino da paz que valoriza o talento

O peregrino da paz que valoriza o talento

A lusofonia esteve muito presente nas decisões que o Papa Francisco tomou na semana passada. Esta iniciou-se com o anúncio de novos cardeais e terminou com a visita do Papa a Moçambique.

Com a nomeação de D. José Tolentino Mendonça, Portugal passa a ter, pela primeira vez na história, cinco cardeais. Apesar de o Papa ter dado atenção às periferias na escolha do seu colégio cardinalício, não terá sido essa a principal razão para a escolha dos dois últimos cardeais portugueses, mas o seu mérito próprio. O que é bem evidente no caso de Tolentino Mendonça.

Ao longo da semana foram sublinhadas, pelas mais diversas personalidades, as qualidades únicas do novo purpurado português. O presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, sintetizou-as muito bem ao referir a "excecional relevância do novo cardeal como filósofo, pensador, escritor, professor e humanista". O cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, destacou o seu percurso extraordinário no diálogo cultural. É uma alegria para Portugal a sua escolha, mas não foi o facto de ser português que mais terá pesado na sua escolha.

Já em Moçambique, o Papa, contrariamente ao que é habitual, escolheu o português para se dirigir às multidões que o acolheram. Não falou em italiano ou castelhano, como costuma. Certamente pretendia que a sua mensagem de esperança, paz e reconciliação fosse bem entendida pelos ouvintes que tinha à frente.

Em Moçambique o Papa condenou a corrupção e apelou à capacidade de perdão dos moçambicanos para dar um futuro melhor ao seu país. "Nenhuma família, nenhum grupo de vizinhos, ou uma etnia e, menos ainda, um país, tem futuro se o motor que os une, congrega e cobre as diferenças é a vingança e o ódio", disse o Papa na homilia da missa que celebrou na passada sexta-feira, no Estádio de Zimpeto, em Maputo, Moçambique.

Para além de Moçambique, o Papa visitou Madagáscar e termina amanhã esta viagem pelo continente africano nas Ilhas Maurícias. São três países que vivem momentos de grande tensão política. Em Moçambique chegou-se recentemente a um acordo de paz, que necessita de ser consolidado. Madagáscar dá passos para voltar a ter um Governo constitucional depois do golpe de Estado de 2009. As Ilhas Maurícias atravessam um período de escândalos financeiros que levaram à demissão do seu presidente no ano passado, mantendo-se politicamente conturbadas.

Aos três países o Papa leva uma mensagem de paz. Uma palavra presente nos logótipos da visita a cada um deles. Para Moçambique foi escolhido o slogan "Esperança, paz e reconciliação". Em Madagáscar o Papa apresentou-se como o "Semeador da paz e da esperança". Nas Ilhas Maurícias será o "Peregrino da paz".

O Papa preocupa-se muito com os países periféricos e com os seus problemas. Ao mesmo tempo, revela o seu olhar atento ao talento que há na Igreja para fazer pontes, para ultrapassar obstáculos, para semear caminhos de futuro. Ainda bem que portugueses e a lusofonia podem contribuir para o seu trabalho pela paz e pelo diálogo cultural.

*Padre