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Opinião

O perigo da cizânia do populismo

O perigo da cizânia do populismo

Os partidos políticos preparam-se para o confronto nas eleições legislativas. Terminada a corrida ao Parlamento Europeu, retiram-se conclusões e corrigem-se estratégias para o novo confronto eleitoral que se aproxima.

A elevada abstenção é o dado mais relevante do escrutínio em Portugal, até porque se verificou em contraciclo com o que aconteceu no resto da Europa. Estas foram as eleições com menor participação dos portugueses, enquanto que no resto da Europa se ultrapassaram os cinquenta por cento de votação.

Continua, também, a não se verificar em Portugal uma subida significativa dos populismos e da extrema-direita, como tem vindo a acontecer noutros países europeus. Tiveram, contudo, alguma expressão - e poderão, segundo extrapolações feitas a partir dos resultados das europeias, lograr alguma representação no Parlamento português.

Terão pelo menos a oportunidade de semear a cizânia das suas ideias durante a campanha eleitoral, como o fizeram nestes meses. São narrativas que obtêm adesões fáceis porque exploram os instintos mais básicos e irracionais das pessoas. Por isso, exigem atenção e, em vez de as acolher com naturalidade, devemos submetê-las à análise da razão e confrontá-las com os códigos éticos. Mesmo que, como aconteceu em Itália, com Matteo Salvini, que beijou o crucifixo do terço num comício, alguns exibam os símbolos do cristianismo e sublinhem a sua filiação cristã ou católica: o que defendem não está de acordo com o Evangelho e não segue as ideias defendidas pelo Papa Francisco!

Quando um candidato defende a prisão perpétua para reclusos, por exemplo, sobretudo para aqueles que cometeram os crimes mais chocantes, é-se tentado a aderir facilmente a essas propostas. Contudo, nem essa posição é cristã, nem está em sintonia com o pensamento do Papa. Defender a pena de morte ou a prisão perpétua é desistir da pessoa e deixar-se dominar pelos mais básicos instintos de vingança. O sistema prisional não deverá ser um instrumento social de vingança, mas sim uma oportunidade de reinserção para o que nele entra.

É verdade que ainda é longo o caminho a percorrer para que a reinserção dos reclusos seja mais eficaz. Mas seguir o atalho da condenação à morte, ou a uma pena perpétua, nem é humano nem é cristão.

Na campanha para as legislativas de outubro, as propostas que exploram os receios das populações e os seus instintos mais básicos reaparecerão de novo. Façamos tudo para que elas não vinguem em Portugal e para que sejam claramente derrotadas nas urnas.

*Padre