PRAÇA DA LIBERDADE

O risco da guerra no centenário da paz

O risco da guerra no centenário da paz

O 11 de novembro não é só o dia de S. Martinho, dos magustos e de ir à adega provar o vinho. Este ano comemorou-se o centenário do Armistício que foi assinado nesse dia, entre os Aliados e a Alemanha, pondo simbolicamente fim à Primeira Guerra Mundial. O Reino Unido e muitos dos países da Commonwealth, bem como os Estados Unidos, dedicam esse dia, que é feriado, à recordação de todos os militares e civis envolvidos, tanto na Primeira, como na Segunda Guerra Mundial.

O século passado ficou marcado por esses dois conflitos mundiais, que, entretanto, se vão esvanecendo na memória coletiva. É urgente revisitá-los e recordar as causas que estiveram nas suas origens, para que não se repitam os mesmos erros. Neste início do século XXI assiste-se ao reaparecimento de comportamentos e de movimentos semelhantes aos que antecederam, prepararam e estiveram na origem da guerra à escala global.

Na génese da guerra está sempre a incapacidade do entendimento entre as nações. Quando uma nação atravessa um período de crise e não tem líderes à altura de resolver os seus problemas, então abre-se o caminho ao aparecimento de "salvadores da pátria". Estes surgem com um discurso que puxa pelo brio nacional e promete resolver todos os problemas que afetam as populações. Então, é-lhes permitido ultrapassar certos limites e começa-se a pactuar com ataques a liberdades, tão fundamentais para o bom funcionamento de uma sociedade como a liberdade de Imprensa, ou a liberdade religiosa.

Na semana passada celebraram-se os 80 anos da noite, entre os dias 9 e 10 de novembro de 1938, em que as forças paramilitares nazis e alguns civis atacaram milhares de lojas, residências e sinagogas judaicas, que deixaram as ruas alemãs cheias de vidros partidos, que por isso se denomina a "Noite de Cristal". Quase cem judeus foram mortos e cerca de 30 mil foram deportados para campos de concentração. Isto sucedeu perante a apatia de muitos e a falta de coragem de tantos outros para denunciar e condenar um ataque tão bárbaro e irracional.

"Que tantas pessoas, muitas das quais cristãs, tenham feito de conta que não viam, ou tenham estado a assistir sem fazer nada, ainda hoje nos enche de vergonha", reconheceu, na celebração dessa efeméride, o cardeal Reinhard Marx, bispo de Munique e presidente da Conferência Episcopal Alemã. "Os acontecimentos do 9 de novembro demonstram que o Estado de direito e a democracia não são conquistas que se consigam de uma vez para sempre". Para este bispo alemão "a democracia era, e é, uma forma de governo em perigo".

Na verdade, se os cidadãos permitirem que políticos sem juízo descredibilizem a democracia, e se forem condescendestes para com falsos messias nos ataques à dignidade humana, então estão criadas as condições para o reaparecimento de sistemas autoritários e nacionalismos exacerbados que poderão conduzir a humanidade a uma III Guerra Mundial. As consequências serão terríveis, imprevisíveis. A destruição da vida humana e do planeta é uma possibilidade real.

PADRE

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