Opinião

Pedofilia e críticas ao Papa

Pedofilia e críticas ao Papa

O Papa Francisco disse aos consagrados e sacerdotes no Chile que "há momentos em que somos confrontados, não com as nossas glórias, mas com a nossa fraqueza". Disse também que "uma Igreja com as chagas é capaz de compreender as chagas do Mundo atual e de assumi-las, sofrê-las, acompanhá-las e procurar saná-las". E sustentou ainda que "a consciência de ter chagas, liberta-nos. É verdade; liberta-nos de nos tornarmos autorreferenciais, de nos considerarmos superiores".

Durante esta viagem ao Chile e ao Peru, mais uma vez o Papa foi confrontado com essa chaga que tem desfigurado a face da Igreja: a pedofilia no seu interior, perpetuada por clérigos e religiosos.

Na primeira reação a esta temática - e às críticas à nomeação para a diocese de Osorno do bispo Juan Barros Madrid, acusado de encobrir um padre pedófilo - o Papa teve uma declaração infeliz ao não dar crédito a essas acusações. Disse que não havia "provas", quando devia ter dito que não havia "evidências": o próprio Papa, aliás, reconheceu isso a bordo do avião de regresso a Roma.

O Papa não esteve bem e um dos seus mais diretos colaboradores, o cardeal Sean O"Malley - presidente da Pontifícia Comissão para a tutela dos menores -, assumiu que as palavras sobre Barros feriram profundamente aqueles que foram abusados pelos membros do clero.

Reconhecer que o Papa não esteve bem e dizê-lo claramente não deverá ser entendido como um ataque, mas antes como um contributo para que ele possa corrigir o seu erro. A crítica destrutiva não deveria acontecer no seio da Igreja. Mas também não é positivo para as comunidades cristãs que os fiéis assumam um posicionamento acrítico em relação ao Mundo, à Igreja e até aos seus líderes. Os cristãos devem, isso sim, desenvolver uma atitude crítica, mas construtiva, a qual deverá ser sempre de uma correção fraterna: irmãos que se corrigem uns aos outros, para que todos possam ser melhores.

No passado, não se podia manifestar a mínima discordância com o que o Papa dizia ou fazia. Nem se podia pôr em causa a orientação que ele dava à Igreja. Curiosamente, os que antes eram os maiores defensores dessas teses, ao longo do pontificado de Francisco foram mudando de opinião. Primeiro, começaram por o criticar em surdina. Rapidamente, começaram a fazê-lo aberta e publicamente. E chegaram a enviar documentos ao Papa em que põem em causa a sua ortodoxia. Continuam hoje a fazê-lo de forma velada, com métodos e expressões pouco evangélicas.

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Os que antes já tinham a ousadia de o fazer, podem continuar a elogiar aquilo que merece ser elogiado, sem deixar de manifestar os aspetos em que, porventura, têm maior dificuldade em acompanhar as decisões do Papa. Podem fazê-lo, sobretudo se quando criticaram os antecessores de Francisco, também souberam elogiar o que de relevante eles fizeram.

Bento XVI foi um dos papas que pior Imprensa tiveram e que recolheu mais críticas; foi, contudo, o Papa que demonstrou maior determinação no ataque à pedofilia no seio da Igreja, impondo uma tolerância zero para esses comportamentos. É injusto, por isso, sublinhar aquilo que de menos positivo o seu pontificado possa ter tido e esquecer este e outros aspetos tão relevantes para o futuro da Igreja.

PADRE

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