Opinião

Um Papa carregado de humanidade

Um Papa carregado de humanidade

O documentário "Francesco" é muito mais do que uma declaração do Papa Francisco sobre a legalização da união entre homossexuais. Também não é um documentário biográfico de Jorge Bergoglio, embora se façam alusões, ainda que breves, à história de vida daquele que os cardeais foram buscar "quase ao fim do Mundo" para dar um bispo a Roma.

O filme do realizador russo Evgeny Afineevsky é um mosaico formado pelos dramas da humanidade que o Papa assumiu como seus. As primeiras imagens são as do Papa a subir sozinho uma Praça de S. Pedro completamente vazia, no passado dia 27 de março, quando rezou por um Mundo em pandemia. O Papa caminhou como se carregasse todas as dores de uma pandemia mundial.

De todos os problemas que afetam a humanidade ele tem falado e, mais importante, tem agido em relação a muitos deles, deixando em alguns a sua marca. Ao longo de perto de duas horas de documentário, são apresentados quase todos. Haverá um ou outro que porventura não seja referido explicitamente no documentário, apesar de ter merecido a atenção do Papa, como é o caso da Máfia.

Entre aqueles que merecem maior destaque, e a que o documentário dedica maior tempo, destacam-se a guerra e a crise ambiental. Estas são das questões que mais preocupam Francisco - e constituem o tema de abertura do documentário. Ligados a estes assuntos estão o drama dos refugiados e, também, a pobreza.

O Papa foi à ilha de Lesbos, na Grécia, e trouxe consigo três famílias muçulmanas, que acolheu no Vaticano. O documentário realça também as influências benéficas das visitas do Papa a Lampedusa e à República Centro-Africana. A primeira esteve na origem da operação "Mare Nostrum", da Marinha italiana, para resgatar refugiados no Mediterrâneo. Já a visita àquele país dilacerado pela guerra, permitiu que se fizessem as eleições e que durante alguns meses tivesse havido paz.

O assunto que merece maior destaque - e que também é o mais constrangedor para o Papa - é a crise dos abusos sexuais na Igreja Católica, sobretudo no Chile. Mas é também aquele que melhor realça a humanidade de um Papa que assume que erra, mas pede perdão e tudo faz para corrigir o seu erro. Mesmo que, para isso, tenha de aceitar a demissão de uma boa parte do episcopado chileno.

Também não foram esquecidas as palavras do Papa sobre o genocídio dos arménios, o Holocausto, o papel da mulher, a desigualdade racial e todo o tipo de discriminação.

Francisco é hoje, verdadeiramente, a incarnação do grande texto do Concílio Vaticano II, a Constituição Pastoral "Gaudium Spes". Diz o seu 1.o número: "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo". Assumiu o nome do santo de Assis e a inquietação que lhe é atribuída: "Ide por todo o Mundo e pregai o evangelho e, se necessário, usai palavras". A frase abre o documentário.

Francisco, como é referido, é "o Papa certo no momento certo".

* Padre

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