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Opinião

Voltar a ordenar diáconos mulheres

Voltar a ordenar diáconos mulheres

A ordenação de mulheres enfrenta hoje maiores resistências culturais do que históricas e, até, teológicas.

Aconteceu o mesmo com o acesso das mulheres ao desempenho de papéis de liderança na sociedade, na economia e na política, os quais no passado eram exclusivos dos homens: hoje também são desempenhados por mulheres. Em muitos casos, as mulheres tornaram-se maioritárias, como na docência nas universidades e politécnicos. Nos cargos de gestão, porém, os homens continuam a ter uma presença preponderante

Em agosto de 2016 o Papa Francisco criou a Comissão Pontifícia para o Diaconado Feminino, com o objetivo de estudar se, no passado, as mulheres já teriam sido ordenadas diáconos. No final do ano passado, a comissão entregou ao Papa as suas conclusões, que ainda não foram tornadas públicas.

Na semana passada estiveram em Portugal dois elementos dessa comissão: Phyllis Zagano, professora de espiritualidade na universidade americana de Hofstra, em Hempstead, Nova Iorque, e o padre jesuíta Bernard Pottier, docente no Institut d"Etudes Théologiques de Bruxelas, na Bélgica. Participaram em encontros internacionais promovidos pela Universidade Católica em Lisboa e no Porto sob o tema "O diaconado feminino. Uma questão em aberto".

Ambos estudam há décadas a questão da ordenação de mulheres. Não têm dúvidas de que já foram ordenadas diáconos no passado, sustentando que há razões teológicas para serem novamente admitidas ao diaconado, como acontece noutras igrejas cristãs não católicas. Não impõem as suas convicções ao Papa no relatório entegue, mas, nas suas declarações à Agência Ecclesia, transparece o desejo de que ele atue no sentido da restauração do diaconado no feminino, deixando algumas sugestões.

"Eu acredito que seria melhor o Papa falar com as conferências episcopais sobre o assunto. Poderia ver se isto é algo que pertence à cultura", disse Phyllis Zagano, à Ecclesia. "Se for o caso, então poderiam dizer que sim".

Há mais de 20 anos, na diocese de Bragança-Miranda, um pároco que não podia celebrar a eucaristia todos os domingos em todas as localidades que lhe estavam confiadas, encarregou leigos de orientar a Celebração da Palavra na sua ausência. Em conversa com uma paroquiana sobre essa modalidade, ela referiu que gostavam muito das celebrações orientadas pelas religiosas, mas preferiam quando era um leigo, "porque um homem no altar é outra imponência!". O padre - surpreendido com esta resposta que sublinhava as resistências culturais que a ordenação de mulheres tem de vencer - era eu, nos meus primeiros anos de pároco.

A história da Igreja, segundo os peritos, parece comprovar que já houve mulheres ordenadas pelo menos diácono. As razões teológicas e práticas que justificaram essa opção no passado podem ser invocadas para voltar a ordenar mulheres. Sobretudo agora, depois de o diaconado permanente ter sido restaurado e permitir a ordenação de homens casados. As objeções culturais, essas, serão mais difíceis de vencer. Mas acabarão por ceder.

* PADRE