Opinião

Em defesa da honra e da verdade

Em defesa da honra e da verdade

Instalados os órgãos municipais, um novo ciclo autárquico começou na cidade do Porto. Para trás ficam doze anos de gestão da equipa liderada por Rui Rio, cuja principal referência foi, segundo vários comentadores e segundo o próprio, ter posto em ordem as desregradas contas do município. O Porto das boas contas passou a ser uma referência nacional, com direito a outdoors espalhados pela cidade e tudo o mais que pudesse demonstrar o rigor e a eficiência financeira da gestão.

No rescaldo das últimas eleições autárquicas, vi e ouvi, em dois programas diferentes de televisão, dois conhecidos comentadores referirem que Rui Rio saneou financeiramente um município superendividado por culpa dos socialistas que o precederam. Num desses comentários, o analista referiu mesmo "sim, os socialistas, acho que foi o Fernando Gomes e o Cardoso...". A ideia instalou-se. E a verdade é que, nos últimos oito anos, nem por uma vez os vereadores socialistas que compuseram o Executivo camarário esboçaram um gesto ou uma palavra para contrariar o conceito que se ia acomodando. A ideia que foi ficando foi a de que muita obra e muita atividade foi realizada nos mandatos socialistas, mas à custa de um desregrado endividamento municipal.

Vezes sem conta, tive que me conter para não vir a público esclarecer o que sabia ser uma muito conveniente confusão sobre a gestão passada, na qual participei como principal protagonista. Mas tive sempre a preocupação de que uma tomada de posição da minha parte pudesse ser entendida como de despeito ou como tentativa de interferência na livre escolha dos cidadãos. Contive-me, na convicção de que um dia o poderia fazer sem correr esse risco. A verdade, porém, é que quem cala, consente. Por isso me pareceu que, agora que um novo período se inicia, era chegado o momento.

Perdoem-me os leitores do JN que me sirva deste espaço para falar de mim. Mas sinto que é necessário separar as águas e que tal não deixa de ser do interesse público. A César o que é de César...

Fui eleito presidente da Câmara do Porto em Dezembro de 1989 e renunciei ao mandato em Agosto de 1999. Durante dez anos, dei o melhor de mim e fiz tudo o que podia para honrar a missão que os portuenses me confiaram. Sempre, mas sempre, com a preocupação, que era a de toda a equipa, de transformar a cidade para melhor, sem perder de vista a equilibrada gestão financeira do município. E foi com esta certeza que terminei funções, convicto de ter deixado para os vindouros condições para um bom desempenho dos seus mandatos. Mas como tanto tem sido dito em contrário, para me certificar fui rever as contas da Câmara Municipal do Porto.

Consultado o Relatório de Atividades e da Conta de Gerência da CMP e dos SMAS referente a 1999, último ano da minha gestão, verifica-se que a dívida total consolidada do município era de 76 523 140 euros (apresentada em escudos e agora convertida em euros). Verificado o Relatório de Gestão de 2012, o último publicado referente à atividade da equipa que agora cessou funções, constata-se que a dívida do município atinge 111 193 330 euros. Um agravamento considerável, convenhamos. Mas se tivermos em conta a dívida total consolidada (que integra as empresas e fundações em que a CMP participa), então já se chega aos 128 831 880 euros.

Acontece que Rui Rio nunca referiu estes valores, mas sim o de 91 milhões de euros. Estava a faltar à verdade? Não, mas mencionava apenas a dívida de médio e longo prazo e não a dívida total. Muito bem, vamos por esse caminho. Comparemos então, apenas, esta parte da dívida com a similar que deixei em 1999. Nesse ano, a dívida era de 67 milhões de euros, bem mais baixa que a de hoje, que tão elogiosas referências merece. Podem dissecar-se os dois relatórios, que a vantagem financeira irá sempre para o exercício terminado em 99. Mas basta-me, por ora, este ponto de ordem para memória futura, em defesa da verdade e da minha honra.

Rui Rio não sabia que era essa a situação económica e financeira da CMP quando cessei funções? Sabia e sabe-o hoje. Mas foi-lhe mais conveniente amalgamar tudo na "desastrosa gestão socialista" para facilitar o seu próprio sucesso.

Lamento que não tenha querido, nunca, separar publicamente o trigo do joio. E é pena. Quem hoje é apontado como uma alternativa política a nível nacional só ganharia em mostrar a diferença em relação àquilo que afinal já temos.