Opinião

Para pior já basta assim

Para pior já basta assim

Depois de assumido o recuo na TSU pela gigantesca contestação de que foi alvo, sempre me convenci (e como eu muita gente) de que o Governo seria cauteloso no anúncio de novas medidas para a contenção do défice. O pressuposto elementar para este raciocínio é o de que quem foi eleito para governar deseja levar o seu mandato a bom termo. Com maiores ou menores dificuldades, o normal é que se deseje completar os quatro anos de governação e poder responder no fim com o trabalho realizado.

Mas agora, e pela segunda vez, parece não ser este o objetivo do Governo. Aquilo que todos entenderam (ou melhor, que quase todos entenderam), nas movimentações de rua que cobriram o país, foi que a TSU era inaceitável para os portugueses pela sua irracionalidade, mas também que a capacidade de resistência da maioria das famílias à austeridade que lhes tem sido imposta está no seu limite.

Entenderam quase todos, mas não o Governo. De outra forma, como se pode explicar o conjunto brutal de novas medidas agora anunciadas por Vítor Gaspar? É claro que algumas delas seriam sempre assumidas em sede de proposta orçamental para 2013, mesmo com TSU. Mas este pacote fiscal, quando se está exangue e depois do recuo na taxa social única, parece retaliação. Não concordam com a TSU? Pois vão ver, então, qual é a alternativa! É na rua que acham que estas questões se resolvem, quando vos propusemos uma medida tão boa para o país? Pois, então, voltem para lá.

Os membros do Governo que quase já não saem dos seus gabinetes e que quando o fazem é protegidos por uma barreira de seguranças nunca antes vista, que entram e saem pelas portas dos fundos nos locais que visitam e que não conseguem dar um passo na rua mesmo fora da atividade governativa, não tiram lições de tudo isto. Ninguém já hoje tem dúvidas de que são cada vez mais os governantes que discordam desta atuação. E não são só os parceiros de coligação.

Mas a verdade é que Passos Coelho e Vítor Gaspar impuseram aos portugueses uma dieta que nos deixa só com pele e osso.

O pior de tudo isto é termos a convicção de que por este caminho não vamos a lado nenhum. Tantos sacrifícios, tantas dificuldades, tantas famílias no desespero, para quase nada, como se está a ver neste ano. Se estas medidas não convencem os portugueses da sua bondade, como restaurar a confiança dos empresários e investidores indispensável à retoma da atividade económica? Menor rendimento disponível das famílias, menor consumo, menos confiança, menos investimento, menor atividade económica, mais falências, mais desemprego. Este é o ciclo vicioso em que estamos envolvidos e que Vítor Gaspar afirma ser prioridade do Governo evitar. Será que ele mesmo está convicto do que afirma?

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Para este Governo, quem ganha mais de 1500 euros mensais é rico. Escapam apenas à depredação social promovida pelo Executivo aquelas famílias cujo rendimento mensal bruto seja inferior a 530 euros; ou seja, aqueles que já estão abaixo da linha de água.

Acima deste nível todos são sacrificados. Começa a ser um lugar-comum dizê-lo, mas a classe média está a desaparecer. Perigosamente. O crescimento sustentado faz-se sempre com o reforço da classe média e não com a sua decapitação.

Na conferência de Imprensa em que o ministro das Finanças aparece a dar a cara por medidas que ninguém quer protagonizar, ele afirmou "Portugal é dos países mais desiguais... Vamos mudar este estado de coisas... Uma sociedade com menores desigualdades é uma sociedade mais justa e também uma sociedade economicamente mais forte". Num ponto estou de acordo com Vítor Gaspar - as desigualdades vão cair abruptamente. Vai aferir-se por baixo e passar o grosso dos portugueses para a pobreza.

Apenas resistirão os muito ricos, que se estima sejam cerca de 100 mil pessoas. Para cerca de 1% da população portuguesa estas medidas não doem. Seremos um país só de muitos muito pobres e de poucos muito ricos.

Uma conclusão resulta de tudo isto: assim não vamos lá. É hoje óbvio que com este rumo e com esta gente não chegaremos a bom porto.

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