Opinião

Antes mamocas à mostra...

Antes mamocas à mostra...

A textura social de Portugal como país tranquilo está em rápido processo de degradação. O empobrecimento decorrente de uma austeridade mal explicada está a fazer crescer o mal-estar e as manifestações de descontentamento crescem como cogumelos, invadem as ruas. Os partidos políticos e organizações sindicais, com o PCP e a CGTP na primeira linha, tendem a não conseguir manter dentro de baias salutares o descontentamento popular. A degradação social, numa circunstância assim, só facilita a análise dos especialistas, unânimes na ideia de se estar perante um recrudescimento dos problemas nos próximos meses até um patamar indesejável de violência.

As manifestações, tanto contra o Governo como contra todos os que gravitam na área da política, têm sido marcadas até agora por uma urbanidade assinalável. Os cartazes agitados em manifestações pautam-se pelo colorido do insulto e do humor; embora fortes, as palavras de ordem só têm gerado o choque em virgens pudicas.

Sim, já há o registo de algumas cabeças partidas, mas nada de monta, sobretudo se se fizer uma comparação com os tumultos que têm trespassado outras zonas da Europa do Sul e das quais as cidades de Atenas, Madrid e Barcelona são exemplos desejavelmente a não seguir.

Sendo justo realçar o modo urbano como as forças de segurança se têm comportado, é, no entanto, avisado ter presente o processo de rutura social em curso, o qual contém todos os condimentos para acentuar a turbulência.

O país tem vivido longe do aproveitamento de grupelhos radicais de Esquerda e de Direita, sempre prontos a lançar a confusão e a espalhar a destruição em nome de desígnios inconfessáveis. Será bom promover a consciencialização coletiva para algo de essencial: as injustiças, por mais duras que sejam, não podem nem devem sair de uma linha de conduta própria de uma sociedade civilizada. Bater nessa tecla será cada vez mais um esforço justificado, antes que o país descambe para uma espiral nada recomendável. Um tal entendimento, é certo, passa pelo diálogo e a explicação de fatores de risco, algo distante de quem detém nesta altura as rédeas do Poder. A ultrapassagem desse défice deve, por isso, estar na primeira linha das prioridades...

O país vive hoje constrangido perante as dificuldades e o sofrimento dos portugueses, mas dispõe de uma vertente positiva: é capaz de promover manifestações onde pais e filhos não destroem lojas, intelectuais usam coelhos no espeto para pôr a descoberto uma enorme falta de gosto e, até, há raparigas a beijarem polícias ou a mostrarem as mamocas em sinal de protesto apaixonado. Pois bem: assim como assim, sejamos capazes de manter um tal espírito. Com violência gratuita nem os soutiens mais anafados resistem...

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