Opinião

Cardápio de virtudes da atual crise

Cardápio de virtudes da atual crise

A chamada "silly season" atacou mais uma vez o país nesta fase do ano. Para não variar. Embora os sintomas, desta vez, levem à suspeita de uma afetação adicional: a da esquizofrenia. Não houve um só bicho-careta incapaz de comentários epidémicos originários da crise política gerada a partir de uma coligação governamental alvo de amuos, traições e piruetas. As hostes, as instaladas e as oposicionistas, rodopiam como mosca tsé-tsé atarantada, alvo da tentativa de arraso geral. E no entanto......

O estado febril do país (ou do protetorado?) disponibilizou também um cardápio de vantagens, nunca acentuadas até agora por não se enquadrarem nas regras do politicamente correto. É justo, pois, elencar muitos aspetos de consciencialização adquirida em função da acrobacia dos últimos dias. Ora então tome nota de alguns:

- O Poder exerce-se, mas não está livre de condicionantes, prévios até aos originários dos chamados poderes ocultos. Um arrufo de nada vale sempre e quando quem o protagoniza está acorrentado a interesses. O génio de Paulo Portas, por exemplo, foi traído por não levar em conta um princípio demasiado básico.

- As decisões soberanas são uma treta sempre e quando a vida de um povo depende de credores. Uns passam o cheque da sobrevivência (a troika); outros respiram em função das mordomias - e esse é o caso dos aparelhos partidários alimentadores dos corredores do poder e da distribuição de benesses. Sem propensão para o haraquíri, os poderes unipessoais julgados geniais acabam por soçobrar. Ao primeiro tremelique tentam reparar erros de avaliação. Em nome da sobrevivência. Própria e dos exércitos de acólitos dos quais dependem.

- Se bem combatido, um ataque de esquizofrenia pode permitir abertura de espaço à reparação de erros de palmatória, só possíveis por teimosia e alucinação. O esforço de sobrevivência abre espaço à tentativa de refrescamento de equipas e de modelos organizacionais de funcionamento. A proposta de organograma de um novo governo gizada pela coligação peca por tardia.

- Os danos de imagem e de credibilidade existem, mas são transversais e o medo sobrepõe-se aos princípios. Um safanão nos mercados bolsistas ou o espetro de mais austeridade decorrente da ameaça de falência do programa assistencial são o bastante para o recuo no enunciado de críticas ou, até, a aposta em algo de diferente... na continuidade. A "real politik" leva a melhor sobre a Democracia, sobretudo quando esta é mitigada.

- Uma crise do jaez da atual é útil também para uma certa teatralização. O susto não dispõe de proprietários exclusivos. Abrange todos; incluindo o faz de conta das alternativas ou a hipótese de por algum tempo ficarem quedos e mudos os profissionais do contra.

- Numa lista quase infindável de benefícios resultantes da atual turbulência, e na qual se inclui o adeus do Excel de Vítor Gaspar e a hipótese do presidente da República recuperar o prestígio entretanto caído nas ruas da amargura, é indispensável retirar a mais determinante das conclusões: Portugal é o que é mercê do desempenho dos seus cidadãos. Em regime democrático, não consta ter havido até agora alguma chapelada eleitoral.

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