Opinião

Álvaro e o canto de sereia

Álvaro e o canto de sereia

Tornou-se moda crucificar por tudo e por nada o ministro Álvaro Santos Pereira. O seu ar afável e descomplexado é, só por si, razão bastante para o zurzir num país adepto do respeitinho e dos ambientes soturnos. Ele fica no entanto mais exposto sempre e quando tenta fazer passar uma mensagem não descodificada - como é o célebre caso da potencialidade dos pastéis de nata como fórmula exportadora capaz de salvar a economia do país; ou ainda e quando, numa roda-viva de dossiês a gerir no superministério, comete o deslize de anunciar o fim próximo da crise e acaba emparedado no poder da caneta de Vítor Gaspar, o ministro das Finanças, ou no esvaziamento de competências - caso das privatizações.

Quase nunca Álvaro Santos Pereira é tido como determinante - mesmo depois de ter assinado um acordo de concertação social. O homem não tem a chamada boa imprensa do seu lado, sabe-se lá se pela falta de peso político específico. Malhar em Álvaro Santos Pereira acaba, enfim, por ser uma banalidade.

... E no entanto o ministro até faz - por vezes - afirmações de senso comum. Mas com as quais acaba por se colocar a jeito.

Ontem, por exemplo, o ministro de muitas pastas, incluindo a Economia e o Emprego (aí está o erro, batizar de Emprego o que deveria ser Trabalho), foi de um ajuizamento controverso. Ouvido na Comissão Parlamentar de Economia e Obras Públicas, Álvaro Santos Pereira mostrou-se convicto de que "Portugal não pode ganhar produtividade a médio/longo prazo com políticas de salários baixos", acrescentando que "num período de grandes dificuldades os ajustamentos terão de ser muito lentos".

A franqueza de Álvaro Santos Pereira é, enfim, ambivalente. E impõe alguma descodificação.

Se à primeira vista é perspetivado um país competitivo segundo um modelo nos antípodas do trabalho escravo praticado em partes significativas da Ásia, África e Américas Central e do Sul, fica-se de pulga atrás da orelha perante a cenarização do médio e longo prazos. Médio é igual a uma década ou mais? Longo prazo significa um quarto, meio ou mesmo um século?

Bastaria um tal desafio temporal para uma retração dos portugueses ao otimismo do ministro. De si já não seria auspicioso. Acontece agravar-se o estado de espírito perante a ideia de que até ao florescimento de uma árvore das patacas acontecerão ajustamentos "muito lentos". A lentidão não foi de todo calendarizada e agrava assim o nó górdio dos "ajustamentos".

Sendo hoje pacífica a ideia segundo a qual o povo aprecia cada vez mais a franqueza e a verdade, por mais duras que sejam, a verbalização de cenários não pode deixar dúvidas a marinar. E desta vez, como noutras ocasiões, Álvaro Santos Pereira acabou por transmitir uma mensagem de encantamento artificial.

O desmantelamento de postos de trabalho por obra e graça de uma míngua económica não deixa sobra a dúvidas: agravando-se o excesso de oferta, a tendência, para mais num país em que uma parte do patronato aprecia o modelo de exploração terceiro-mundista, será cada vez mais a deterioração salarial. Até níveis insuportáveis. A promessa do contrário é um canto de sereia para a próxima encarnação.